terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Igrejas Católicas Orientais: 05 - A IGREJA COPTA CATÓLICA

A Cruz Copta

Igreja Copta Católica, também chamada de Patriarcado Copta Católico de Alexandria, é uma das 23 igrejas orientais ditas "sui juris", isto é, "autônomas", em plena comunhão com a Sé Apostólica de Roma. Isto significa, portanto, que a Igreja Copta Católica reconhece a autoridade do Papa como sumo pontífice, pai e líder de todos os católicos do orbe.

Há, atualmente, aproximadamente trezentos mil Católicos Coptas em todo o mundo, dos quais a grande maioria encontra-se no Egito, embora também sejam encontrados em outros países do oriente (Síria, Líbano, Turquia, Kwait) assim como em países da Europa e América (Estados Unidos e Canadá). Mas afinal, quem são os Coptas Católicos?

ORIGEM DA IGREJA COPTA CATÓLICA

Brasão de armas de sua beatitude Ibrahim Isaak Sidrak, patriarca copta católico de Alexandria 


Os Coptas Católicos são os cristãos católicos orientais que devem sua origem ao Patriarcado de Alexandria.

Como vimos anteriormente, a Igreja Católica é a comunhão de igrejas (comunidades cristãs) que professam a mesma Fé e que estão sujeitas aos mesmos chefes espirituais que as governam (bispos), estes por sua vez unidos entre si e à Igreja de Roma assim como a seu  bispo, o Papa. Nessa Comunhão Católica, podemos dizer que a Igreja possui duas raízes: a ocidental, também chamada latina (ou Romana) e a oriental. Dentro desta segunda, quatro são as sedes patriarcais que marcaram sua história: Jerusalém, AntioquiaAlexandria e ConstantinoplaAs 5 (cinco) sedes patriarcais formariam aquilo que denominamos "pentarquia" (conforme vimos nos artigos anteriores), encabeçada pela Igreja de Roma e o Pontífice Romano: o Papa.

Para que possamos compreender melhor, devemos entender, primeiramente, como se desenvolveu a Igreja em Alexandria.



FUNDAÇÃO APOSTÓLICA  


São Marcos Evangelista pregando em Alexandria

A Igreja egípcia, conforme a Tradição, foi fundada pelo Evangelista São Marcos, por volta do ano 42 d.C. e é entendida como tema de muitas profecias já do Antigo Testamento. O profeta Isaías, no capítulo 19, versículo 19, diz:

"Naquele dia, haverá um altar para o Senhor no meio da terra do Egito, e em suas fronteiras, um obelisco dedicado ao Senhor".

Os primeiros cristãos no Egito eram pessoas comuns que tinham o idioma copta como língua própria. Havia também o povo judeu alexandrino (habitantes de Alexandria), como Teófilo, a quem São Lucas Evangelista se dirige no capítulo introdutório de seu Evangelho. Quando a Igreja foi fundada por São Marcos, ainda sob o reinado do imperador romano Nero, uma grande multidão de egípcios nativos (em oposição a gregos ou judeus) abraçou a fé cristã.

O cristianismo se espalhou por todo o Egito, meio século após a chegada de São Marcos em Alexandria, como é evidente nos escritos do Novo Testamento encontrado em Bahnasa, no Egito Central, que datam de algo por volta do ano 200. Há também um fragmento do Evangelho de São João, escrito em copta, encontrado no Alto Egito, escrito entre o ano 100 e 150, portanto, na primeira metade do século II. No segundo século, o cristianismo começou a se espalhar para as áreas rurais, e as escrituras foram traduzidas para os idiomas locais, a saber, o copta.

A língua copta, termo este que também designa os membros da Igreja do Egito (referindo-se assim aos "egípcios originais"[não gregos], é uma linguagem universal usada na igrejas coptas como verdadeira marca de sua identidade. É derivado do egípcio antigo, sendo que muitos dos hinos litúrgicos estão em copta e foram transmitidos há milênios. O idioma é usado para preservar a língua original do Egito, uma vez que os invasores árabes a baniram obrigando os egípcios a substituí-la pelo idioma árabe.

Após a fundação da Igreja de Alexandria pelo Evangelista São Marcos, seu desenvolvimento esteve intimamente ligado ao desenvolvimento teológico ocorrido neste que foi um dos grandes centros teológicos da Igreja de Cristo em seu início: A Escola de Alexandria.


A CONTRIBUIÇÃO DA ESCOLA CATEQUÉTICA DE ALEXANDRIA E A VIDA MONÁSTICA EGÍPCIA NA FORMAÇÃO DA IGREJA


Santo Atanásio, Patriarca de Alexandria

A Escola Catequética de Alexandria é a escola catequética mais antiga do mundo: São Jerônimo afirma que a mesma teria sido fundada pelo próprio Evangelista São Marcos. Por volta do ano 190, já era reconhecida como importante instituição de aprendizado religioso, tendo entre seus mestres o nativo egípcio Orígenes, considerado um dos pais da Teologia e ativo no campo dos comentários e estudos bíblicos comparativos. Essa escola teológica teve muita influência no pensamento da Igreja nos primeiros séculos, além de destacar-se pelo ensino também em outros campos não religiosos, tais como as áreas de matemática, ciências e humanidades.

Outra contribuição do cristianismo egípcio à Igreja é a vida e espiritualidade monástica, por ter sido este o berço do monaquismo. Muitos cristãos egípcios foram ao deserto durante o século III e permaneceram lá para orar, trabalhar e dedicar suas vidas à reclusão e à adoração a Deus. Este foi o começo do movimento monástico, organizado por Santo Antônio, o Grande, São Paulo de Tebas, o primeiro anacoreta do mundo, Santo Antão, São Macário (o grande) e São Paquônio, o Cenobita, já no século IV.


Padres do Deserto: Santo Antão e São Paulo Eremita

O monasticismo cristão nasceu no Egito e foi fundamental para a formação da Igreja Copta. Praticamente todo o monaquismo cristão deriva, direta ou indiretamente, do exemplo egípcio. São Basílio Magno, Arcebispo de Cesareia da Capadócia, fundador e organizador do movimento monástico na Ásia Menor, visitou o Egito por volta de 357 e seu modelo é seguido por monges até nossos dias, seja pelos ortodoxos, seja pelos católicos orientais (de Rito Bizantino). São Jerônimo, que traduziu a Bíblia para o latim, veio ao Egito, a caminho de Jerusalém, por volta do ano 400, e deixou detalhes de suas experiências em suas cartas; São Bento fundou a Ordem Beneditina no século VI no modelo de São Paquômio, embora de maneira ainda mais rigorosa. Inúmeros peregrinos visitaram os "Pais do Deserto" para imitar suas vidas espirituais e disciplinadas. Este, portanto, foi um elemento de grande influência na formação da Igreja Copta: a espiritualidade monástica.



A IMPORTÂNCIA DA IGREJA COPTA NOS PRIMEIROS CONCÍLIOS


Primeiro Concílio de Nicéia

A igreja do Egito, com seu Patriarcado em Alexandria, teve grande importância para o desenvolvimento da Igreja, seja por sua influência teológica e monástica (como vimos), seja por sua importância eclesiológica: o patriarcado de Alexandria rivalizava com o Patriarcado de Constantinopla, "a nova Roma", pela dignidade e importância dentre as Sedes Patriarcais (estando apenas atrás da Sé de Roma). Além disso, de lá saíram heresias que modificariam os rumos da Igreja posteriormente, assim como grandes santos que as combateram.

No século IV, um presbítero alexandrino chamado Ário (ou Arius) iniciou uma disputa teológica sobre a natureza de Cristo que se espalhou por todo o mundo cristão (e que posteriormente passou a ser conhecida pelo nome de "arianismo"). O então Patriarca de Alexandria, Alexandre I, solicitou a realização de um Concílio para tratar desta que parecia ser verdadeira heresia. Então, o Imperador Constantino convocou aquele que viria a ser o Concílio Ecumênico de Nicéia, realizado no ano 325 e presidido pelo bispo São Ósio de Córdoba, para resolver a disputa. Neste Concílio foi formulado o Símbolo da Fé, também conhecido como Credo Niceno. O Credo, que  serve de base para o credo recitado até nossos dias em todo o mundo cristão, foi fundamentado nos ensinamentos daquele que era então diácono e secretário do Patriarca Alexandre: Santo Atanásio de Alexandria, o principal oponente de Ário. Santo Atanásio, posteriormente eleito 20º Patriarca de Alexandria, tornou-se um dos principais Pais da Igreja, tido oficialmente como Doutor da Igreja e Herói da Fé.

Alguns anos depois, em 381, O Patriarca de Alexandria Timóteo I presidiu o segundo Concílio Ecumênico, que tornar-se-ia conhecido como Concílio Ecumênico de Constantinopla. Nele, buscou-se definir a Doutrina sobre a Divindade do Espírito Santo, condenando-se assim as doutrinas heréticas de Macedônio, que negava a divindade do Espírito Paráclito. Este Concílio complementou o Credo Niceno, originando assim o chamado Credo Niceno-Constantinopolitano, que confirma a Fé no Divino Espírito Santo e que passou a ser rezado nas Divinas Liturgias (Missas) em todo o mundo, até nossos dias. 
São Cirilo de Alexandria,
Patriarca

Outra disputa teológica, desta vez no século V, teve participação decisiva da Igreja de Alexandria. Nestório, o Patriarca de Constantinopla, estava a ensinar que (o Verbo de) Deus não estava hipostaticamente ligado à natureza humana, mas antes, apenas habitava no homem Jesus. Como consequência disso, ele negou à Virgem Maria o título de "Theotokos" (Mãe de Deus), declarando-a simplesmente "Christotokos" (Mãe de Cristo). Quando as doutrinas de Nestório alcançaram o trono apostólico de São Marcos,  chegando ao conhecimento do então Patriarca de Alexandria, São Cirilo, este imediatamente solicitou a Nestório que se arrependesse e se retratasse, enviando-lhe a carta que ficou conhecida como "A Terceira Epístola de São Cirilo de Alexandria à Nestório". Nela estavam contidos os chamados "Doze anátemas de São Cirilo". Como Nestório ainda assim não se arrependeu, foi convocado o Concílio Ecumênico de Éfeso, que transcorreu em 431, e que foi presidido pelo Patriarca São Cirilo de Alexandria. Este Concílio condenou a doutrina de Nestório como heresia (que passou a ser chamada "Nestorianismo") e confirmou a importância da Igreja de Alexandria na defesa da Ortodoxia Católica.

Algumas igrejas separaram-se da Comunhão com a Igreja por simpatizarem com as doutrinas de Nestório e não aceitarem as definições do  Concílio de Éfeso. Tais igrejas subsistiram naquela que hoje é chamada Igreja Assíria do Oriente. No entanto, para a maior parte do mundo cristão, a Igreja permanecia unida aos 5 grandes Patriarcados que seguiam em Comunhão e professavam a mesma Fé.


O CONCÍLIO DE CALCEDÔNIA E A IGREJA COPTA

Concílio de Calcedônia

Durante os embates cristológicos que tendiam a dividir os cristãos, o Patriarca Dióscoro, sucessor de São Cirilo na Sé de Alexandria, solicitou ao imperador Teodósio II que convocasse um Concílio para resolver as questões relativas à natureza de Cristo, assim como sobre a situação de Eutiques, monge de Constantinopla que havia se tornado o principal expoente do que seria denominado monofisismo,  uma doutrina que negava a existência de duas naturezas em Cristo. Eutiques havia sido condenado como herético em um sínodo realizado em Constantinopla, presidido pelo Patriarca daquela Sé, São Flaviano, no ano de 448. Dióscoro de Alexandria, simpatizante das doutrinas monofisitas de Eutiques e oponente de São Flaviano de Constantinopla, buscava com este Concílio reabilitar Eutiques além de condenar a Flaviano.

Foi então que no ano seguinte,  em 449 aconteceu o "Segundo Concílio de Éfeso" (entre aspas já que, como veremos, não será reconhecido pela Igreja). Os legados papais trouxeram para o concílio duas cartas do Papa São Leão Magno endereçadas ao Patriarca São Flaviano de Constantinopla, onde se condenavam as doutrinas de Eutiques como heréticas. Dióscoro de Alexandria, no entanto, não só não permitiu que elas fossem lidas como também não permitiu que os legados papais presidissem o Concílio, sendo ele mesmo quem o presidiu. Neste concílio Eutiques foi reabilitado juntamente com suas doutrinas, e São Flaviano foi condenado, sendo deposto da Sé de Constantinopla, surrado e aprisionado, falecendo pouco tempo depois. Os legados papais não aceitaram tais acontecimentos, retornando à Roma e comunicando tudo ao Papa São Leão Magno, que condenou tal concílio e suas decisões, chamando-o de "Latrocínio de Éfeso", o "concílio de ladrões".
Papa São Leão Magno

Após o morte do imperador Teodósio II, seu sucessor Marciano foi impelido pelo Papa a convocar novo Concílio para fazer justiça, sanar as divisões e estabelecer a ortodoxia. Foi então que em 451 foi aberto o Concílio Ecumênico de Calcedônia. Neste Concílio Dióscoro de Alexandria foi três vezes convocado a comparecer para explicar-se, no entanto não o fez (em geral, os coptas dizem que não lhe foi permitido pelos soldados do imperador). Neste Concílio foram lidas as epístolas do Papa São Leão Magno ao Patriarca São Flaviano, que posteriormente ficaram conhecidas na história como "Tomo Leonino" ou "Tomus ad Flavianus", onde o Papa São Leão Magno expôs a doutrina ortodoxa sobre Cristo e sua natureza, ao qual após a leitura, os padres conciliares em concordância afirmaram que "Pedro falou pela boca de Leão". Eutiques e suas doutrinas foram novamente condenadas, e o Patriarca Dióscoro de Alexandria foi deposto. Após sua deposição, a maior parte da Igreja de Alexandria, clero e fiéis, sentiram-se injustamente sub-representados no Concílio e oprimidos politicamente pelo império Bizantino.

Para consumar a separação que já se fazia visível, o imperador - para impor a Fé de Calcedônia à Igreja de Alexandria - nomeou como novo Patriarca a Protério, o que não foi aceito pela maioria dos cristãos coptas de Alexandria, que por sua vez nomearam seu próprio Patriarca, Timóteo Eluro, rompendo assim a comunhão com a Igreja Calcedoniana (Católica). Esta parte, portanto, da Igreja de Alexandria que se separava do restante da Igreja Católica que aceitava o Concílio de Calcedônia, passou a chamar-se Igreja Copta Ortodoxa de Alexandria.

Catedral de São Marcos, Sede principal da Igreja Copta Ortodoxa de Alexandria

As conclusões do Concílio de Calcedônia também foram rejeitadas por muitos cristãos que se encontravam à margem do Império Bizantino: além dos egípcios (coptas), também armênios (originando a Igreja Apostólica Armênia) e alguns sírios (originando a Igreja Sirian-Ortodoxa de Antioquia).

A partir de então, passou a existir dois patriarcas em Alexandria: o nativo egípcio (copta) e não-calcedoniano, chamado Patriarca Copta de Alexandria e o "melquita" (imperial) calcedoniano (católico) Patriarca Grego de Alexandria. Este último, quando do Cisma do Oriente em 1054, acompanhou Constantinopla, sendo a partir de então Patriarca Grego Ortodoxo de Alexandria. Ainda assim, o Patriarca católico/ortodoxo e a igreja sob seu pastoreio continuaram como minoria em Alexandria: quase toda a população, assim como o clero, rejeitou os termos do Concílio de Calcedônia e permaneceu fiel à Igreja egípcia nativa (a partir de então conhecida como Igreja Copta Ortodoxa de Alexandria). Os coptas sempre consideraram-se mal compreendidos pelo Concílio de Calcedônia, inclusive muitos acreditaram ser as causas de sua condenação muito mais políticas que teológicas.


Como vimos, portanto, a partir de Calcedônia passaram a existir dois grupos de cristãos em Alexandria: o primeiro, minoritário, composto por aqueles que  aceitaram dogmaticamente a Fé católica e ortodoxa professada no Concílio de Calcedônia, conhecidos como Melquitas ("reais" já que acataram as ordens do rei), também chamados gregos/bizantinos (tanto por sua submissão ao imperador quanto por seu rito, já que haviam adotado o rito de Constantinopla), portanto católicos (em comunhão com Roma, Constantinopla e demais Igrejas calcedonianas). E o segundo, a grande maioria, composta por aqueles que não aceitaram o Concílio de Calcedônia, que passaram a ser conhecidos simplesmente como Coptas. Estes, que como vimos, passaram a denominar-se Igreja Copta Ortodoxa, seguiram em comunhão com a Igreja Apostólica Armênia e a Igreja Sirian-Ortodoxa,  formando a comunhão das Igrejas Ortodoxas Orientais.


A FORMAÇÃO DA IGREJA COPTA CATÓLICA 

A situação da Igreja de Alexandria permaneceu dividida em 2, conforme anteriormente explicado, até 1054, quando se deu o chamado "Grande Cisma do Oriente".  Com esse episódio, a minoria bizantina-grega do Patriarcado de Alexandria (calcedoniano) seguiu o Patriarcado de Constantinopla, separando-se de Roma: desde então o Patriarcado (calcedoniano) de Alexandria rompeu a comunhão  com a Igreja Católica e passou a denominar-se Patriarcado Grego Ortodoxo de Alexandria. Além  dele, a maioria cristã de Alexandria continuava a integrar o Patriarcado Copta Ortodoxo.


OS ATUAIS
Patriarca Grego de Alexandria Teodósio II (calcedoniano) e o Patriarca Copta Ortodoxo de Alexandria Tawadros II (não-calcedoniano) 


Após quase 1000 anos da separação da Igreja Copta Ortodoxa da Igreja Católica, entre os anos  de 1431 e 1445 a Igreja de Roma realizou o Concílio de Basiléia-Ferrara-Florença, onde se conseguiu sob o Papa Eugênio IV a união com a Igreja Copta, mais precisamente em 1442, por meio da Bula Cantate Domino. Infelizmente o distanciamento entre  a Igreja Copta e o Ocidente, sobretudo após a conquista de Constantinopla e queda do Império Bizantino pelos turcos em 1453, fez com que tal distanciamento esfriasse essa união ao ponto de torná-la inexistente.



Foi então que no século XVII, missionários ocidentais - principalmente franciscanos - começaram a chegar ao Egito, travando boas relações com os coptas. Em 1630, foi fundada uma missão da Ordem dos Capuchinhos no Cairo. Os Jesuítas, por sua vez, chegaram em 1675. Em 1713, o Patriarca Copta de Alexandria uniu-se novamente à Igreja Católica, submetendo-se à Roma. Essa união, tal como a que se deu em 1442, não durou muito.



Em 1741, o Bispo Copta de Jerusalém Anba Athanasius, tornou-se católico (e com ele uma parte considerável de seu clero), buscando assim ser recebido em comunhão com Roma. Quatro décadas depois, em 1781, o Papa Bento XIV o nomeou como vigário apostólico de cerca de 2000 católicos coptas egípcios. Posteriormente o Bispo Anba Athanasius retornou à Igreja Copta Ortodoxa, tendo então outros clérigos coptas católicos servido como vigários apostólicos.

INSTITUIÇÃO DO PATRIARCADO COPTA

Por influência do vice-rei otomano que queria um patriarca católico para os coptas, em 1824, o Papa estabeleceu o Patriarcado de Alexandria do Vicariato Apostólico da Síria, Egito, Arábia e Chipre, embora de certa forma se possa dizer que tal patriarcado era algo mais titular do que propriamente real. Os otomanos, a partir de 1829, passaram a permitir que os coptas católicos construíssem suas próprias igrejas.

Patriarca Copta Católico Kyrillos II Makarios
Meia década depois, o número de católicos de rito copta aumentou tanto que chegou ao ponto de, em 1895, o Papa Leão XIII restaurar o Patriarcado Copta Católico de Alexandria. Ele nomeou ao Bispo Cyril Makarios como vigário patriarcal. Makarios por sua vez, presidiu um sínodo, o que levou à introdução de algumas práticas latinas. Em 1899, Leão XIII nomeou Makarios como Patriarca de Alexandria dos Coptas Católicos, tomando o nome de Cirilo II. O Patriarca esteve à frente da Igreja Copta Católica até 1908 quando, devido à uma controvérsia, renunciou à pedido do Papa. O trono patriarcal permaneceu vago até 1947, sendo o Patriarcado administrado por um administrador apostólico.

Markos Khouzam ainda Bispo
Em 1947 foi permitida à Igreja Copta Católica reunir-se em Sínodo para a eleição de um novo patriarca. Nele foi escolhido Arcebispo de Tayibe, Markos Khouzam, como Patriarca Copta Católico de Alexandria, sob o nome de Markos II Khouzam. O Patriarca Marcos II foi entronizado em 10 de agosto de 1947, governando a Igreja Copta Católica por uma década, tendo - inclusive - encontrado-se com o Papa Pio XII.

O Patriarca Copta Católico Markos II Khouzam juntamente com alguns clérigos. Pode-se observar também alguns frades franciscanos, integrados à Igreja (e ao Rito) Copta Católica
Sua Beatitude o Patriarca Copta Católico Markos II Khouzam e Sua Santidade o Papa Pio XII

Faleceu em odor de santidade, em 2 de fevereiro de 1958. Foi sucedido pelo Bispo auxiliar da Eparquia de Alexandria, Stéphanos Sidarouss.

Patriarca Copta Católico Stéphanos I Sidarouss
Stéphanos (Estevão) Sidarouss nasceu no Cairo, em 22 de fevereiro de 1904. Ingressou na Congregação dos Lazaristas, tendo sido enviado a diversas casas desta congregação na França, onde realizou seus estudos e foi ordenado sacerdote, em 22 de julho de 1939, tendo - inclusive - lecionado nas casas lazaristas deste país. Entre 1946 e 1947, foi diretor do Instituto Eclesiástico de Coptas Católicos em Tantah, Egito. Em 25 de janeiro de 1948, foi sagrado Bispo auxiliar de Alexandria pelo Patriarca Markos II Khouzam. Uma década depois, em 10 de maio de 1958, foi eleito Patriarca Copta Católico de Alexandria, tendo, inclusive, participado do Concílio Vaticano II.

Sua Beatitude Patriarca Copta Católico
Stéphanos I Sidarouss, já criado Cardeal
Durante o Sínodo dos Bispos de 1971, expressou sua opinião sobre acreditar ser imprudente a Igreja Latina ordenar homens não celibatários, dentre outras coisas, por julgar que poderiam ficar muito absorvidos pelos assuntos familiares. Em 1965, o Papa Paulo VI o criou cardeal, sendo o primeiro Patriarca Copta a receber tal título, o que lhe permitia participar como eleitor dos conclaves que elegem o Papa. Desta forma, participou dos conclaves de agosto e outubro de 1978, que elegeram João Paulo I e João Paulo II. Na conclusão de ambos conclaves, foi um dos poucos cardeais que acompanhavam o novo papa eleito ao aparecer no balcão central da Basílica de São Pedro. Sua Beatitude Stéphanos I Sidarouss faleceu em 23 de agosto de 1987 no Cairo. Foi sucedido pelo Bispo de Luxor, Andraos Ghattas.

Sua Beatitude Patriarca Copta Católico Stéphanos II Ghattas

Andraos Ghattas nasceu na Vila de Cheikh Zein-el-Dine, na província de Girga, Egito. Quando adolescente, sentido o chamado ao sacerdócio, entrou no seminário menor da Igreja Copta Católica no Cairo. Foi para Roma, onde obteve doutorado em Teologia e Filosofia, sendo lá ordenado sacerdote em 25 de março de 1944. Em seguida retornou ao Egito, onde lecionou em diversos seminários coptas do país. Em 8 de maio de 1967 foi eleito bispo de Luxor, sendo consagrado em 9 de junho do mesmo ano pelas mãos do Patriarca Copta Cardeal Stéphanos I Sidarouss. Em junho de 1986, após a renúncia de seu antecessor, foi eleito pelo Santo Sínodo Copta Católico o novo Patriarca Copta Católico de Alexandria, com o nome de Stéphanos II Ghattas.
Sua Beatitude Patriarca Copta Católico
Stéphanos II Ghattas, já criado Cardeal

Sua Beatitude foi nomeado Cardeal pelo Santo Padre o Papa João Paulo II em 2001, no entanto, por ter completado 80 anos antes do Conclave de 2005, não participou deste que culminou na eleição do Papa Bento XVI. Em 2006 Stéphanos II Ghattas renunciou ao posto de Patriarca, falecendo 3 anos depois, em 20 de janeiro de 2009, no Cairo, com quase 90 anos. Após sua renúncia, foi sucedido pelo Bispo de Minya, Antonius Naguib.




Sua Beatitude o Patriarca Copta Católico
Antonius Naguib

Antonius Naguib nasceu em Samalut, em 18 de março de 1935. Após atender ao chamado do Senhor à vocação, estudou de 1953 a 1958 no Seminário de Maadi (Cairo) e, mais tarde, no Pontifício Colégio Urbano, em Roma. Voltou então ao Egito, onde foi ordenado sacerdote copta católico, no ano de 1960. Retornou a Roma onde recebeu licenciatura em Teologia em 1962 e em Sagrada Escritura em 1964. Regressou ao Egito onde desde então, passou a lecionar Sagrada Escritura no seminário de Maadi, tendo inclusive composto um grupo de especialistas responsáveis pela tradução da Bíblia ao árabe.

Em 1977, foi sagrado e empossado Bispo de Minya (Egito), cargo que ocupou até sua renúncia em 2002. Em 30 de março de 2006, foi foi eleito Patriarca Copta Católico de Alexandria, adotando o nome de Antonios I Naguib, recebendo a comunhão eclesiástica do Papa Bento XVI em 7 de abril de 2006. Em abril de 2010, apresentou sua renúncia ao Santo Sínodo Copta Católico, que no entanto a recusou, pedindo a ele que continuasse como Patriarca da Igreja Copta Católica.

Sua Beatitude Patriarca Antonius Naguib com Sua Santidade o Papa Bento XVI

Em outubro de 2010 foi escolhido como Relator Geral do Sínodo dos Bispos do Oriente e em 20 de novembro do mesmo ano, foi feito Cardeal pelo Papa Bento XVI. Teve papel importante na intermediação da paz durante os conflitos no Egito, ocorridos em 2011. No último dia deste ano, sofreu um derrame, o que fez com que sua saúde se deteriorasse ao longo do ano de 2012. Ainda assim, participou do Conclave de 2013 que elegeu o Papa Francisco. Em 15 de janeiro de 2013, renunciou ao posto de Patriarca. O Patriarca emérito Cardeal Antonios Naguib segue com quase 85 anos, embora com a saúde bastante debilitada.

IBRAHIM ISAAC SIDRAK, atual Patriarca Copta Católico de Alexandria e todo o Egito

Sua Beatitude Ibrahim Isaac Sidrak,, Patriarca Copta Católico de Alexandria

Ibrahim Isaac Sidrak nasceu em 19 de agosto de 1955 em Beni-Chokeir, província de Asyut. Estudou Teologia e Filosofia no Seminário Patriarcal de São Leão em Maadi (subúrbio do Cairo) e foi ordenado sacerdote em 1980. Após servir por dois anos na Paróquia São Miguel Arcanjo, no Cairo, foi enviado à Roma para estudar na Pontifícia Universidade Gregoriana, onde recebeu seu doutorado em Teologia Dogmática. Entre 1990 e 2001, foi reitor do Seminário Patriarcal de Maadi, posteriormente pároco da Catedral Patriarcal de Nossa Senhor do Egito, no Cairo, quando em outubro de 2002 foi eleito e sagrado Bispo de Minya.

Patriarca Copta Ortodoxo na entronização do Patriarca Copta Católico
Em 15 de janeiro de 2013, Ibrahim Isaac Sidrak foi eleito pelo Santo Sínodo da Igreja Copta Católica como o Patriarca Copta Católico de Alexandria e todo o Egito, recebendo a comunhão eclesiástica do Papa Bento XVI três dias depois, em 18 de janeiro de 2013. Em sua entronização, compareceu Patriarca  Copta Ortodoxo. Sua beatitude Ibrahim Isaac Sidrak mantém ótima relação com a Igreja Copta Ortodoxa e seu Patriarca, o Papa Tawadros II (papa também é um título tradicionalmente concedido ao Patriarca de Alexandria). Ele trabalha incansavelmente por aquele que seria seu maior objetivo, que seria uma futura unificação das igrejas  Católica e Ortodoxa Coptas do Egito, fazendo haver novamente uma única Igreja Copta em Comunhão  com Roma, portanto, Católica. Queira o Senhor que um dia tal acontecimento se realize.

Patriarca Copta Ortodoxo de Alexandria Tawadros II e  Patriarca Copta Católico de Alexandria Ibraim Isaac Sidrak



Sua Beatitude Patriarca Ibraim Isaac Sidrak com Sua Santidade o Papa Francisco quando de sua visita ao Egito

ORGANIZAÇÃO DA IGREJA COPTA CATÓLICA


Lateral da Catedral Patriarcal Nossa Senhora do Egito - Cairo - Egito
Interior da Catedral, a principal da Igreja Copta  Católica

O atual Patriarca dos Coptas Católicos de Alexandria e todo o Egito, Sua Beatitude Ibrahim Isaac Sidrak, preside a Eparquia Patriarcal de Alexandria assim como a Sé  Metropolitana do Cairo, capital moderna do Egito. Ele  preside a Assembléia da Hierarquia Católica do Egito e lidera espiritualmente toda a Comunidade Copta Católica ao redor do mundo. A comunidade também inclui:

- A Eparquia de Assiut.

A Eparquia de Guizeh.

A Eparquia de Ismayliah.

- A Eparquia de Luqsor (Luxor).


- A Eparquia de Minya.

A Eparquia de Sohag.

Além disso, a Igreja Copta Católica conta com centenas de paróquias e comunidades espalhadas pelo mundo, principalmente em outros países do oriente (Síria, Líbano, Turquia, Kwait) assim como em países da Europa e América (Estados Unidos e Canadá). Por não haver grande concentração de Coptas  Católicos em lugares específicos fora do Egito são pequenas comunidades dispersas), encontram-se sob jurisdição direta do Patriarcado ou então sob responsabilidade das Dioceses latinas onde estão inseridas.

Ordens Religiosas



A Igreja Copta Católica não possui mosteiros. Em vez disso, a Igreja tem Congregações Religiosas. São três congregações femininas: as Irmãs do Sagrado Coração, as Irmãs Coptas de Jesus e Maria e a Província Egípcia das Pequenas Irmãs de Jesus. Há também a comunidade (masculina) dos Franciscanos que seguem o Rito Copta.

Educação e Saúde

A maior parte dos candidatos ao sacerdócio é formada no Seminário Patriarcal de São Leão, no subúrbio do Cairo, embora a Igreja possua outros seminários. Mais de 100 paróquias Coptas Católicas administram escolas primárias e secundárias. A Igreja também mantém um hospital, vários dispensários e clínicas médicas, assim como vários orfanatos.
Infelizmente não há presença da Igreja da Igreja Copta Católica no Brasil.


A LITURGIA COPTA CATÓLICA 





A Igreja Copta Católica utiliza o Rito Copta (Alexandrino), rito este enraizado na antiga tradição da Igreja de Alexandria e cujo início remeteria ao próprio São Marcos Evangelista.

Seguem assim uma tradição semelhante a outras Igrejas Católicas Orientais que usam o Rito Alexandrino, como a Igreja Católica Etíope e a Igreja Católica Eritreia, embora as duas últimas tenham particularidades no Rito que lhe são próprias.




Além do Rito, a disposição dos templos e sua ornamentação, assim como os paramentos litúrgicos, são praticamente os mesmos da Igreja Copta Ortodoxa. A diferença é mais perceptível apenas nas vestimentas cotidianas dos clérigos: O Patriarca e os Bispos usam um vestuário mais parecido com o dos Patriarcas e Bispos gregos (melquitas, ortodoxos, etc) ao passo que os sacerdotes, em geral, usam uma batina muito semelhante à dos sacerdotes latinos.






Esperamos que com este simples artigo possamos, de alguma forma, contribuir para que mais e mais católicos conheçam e amem as riquezas do Oriente Católico, o lado oriental da Santa Igreja Católica.

Viva a Igreja Copta! Viva a Igreja Católica!

domingo, 27 de outubro de 2019

Igrejas Católicas Orientais: 04 - A IGREJA SIRÍACA CATÓLICA

Ruína de uma das muitas Igrejas na Síria, destruídas pelos ataques promovidos pelo Isis, como também pelas guerras que assolam a região

Igreja Síria Católica, em siríaco (ܥܕܬܐ ܣܘܪܝܝܬܐ ܩܬܘܠܝܩܝܬܐ), também chamada Igreja Católica Siríaca, ou Patriarcado Católico Siríaco de Antioquia, é uma das 23 igrejas orientais ditas "sui juris", isto é, "autônomas", em plena comunhão com a Sé Apostólica de Roma. Isto significa, portanto, que a Igreja Síria Católica reconhece a autoridade do Papa como sumo pontífice, pai e líder de todos os católicos do orbe.

Há, atualmente, pouco mais de duzentos mil Católicos Siríacos em todo o mundo, dos quais uma grande parte encontra-se na Síria, no Líbano, no Iraque, na Turquia, em Israel, na Palestina e demais territórios do Oriente Médio e Próximo. Há também siríacos católicos espalhados por diversos países do mundo, tanto na Europa quanto nas Américas, sobretudo por fugirem das constantes perseguições aos cristãos em seus países de origem. Ainda assim, outros tantos Católicos identificam-se com os Siríacos Católicos por laços históricos ou por ligação que mantêm pelo Rito Siríaco Antioqueno: Maronitas, Siro-Malankares (Índia) além dos Siríacos Ortodoxos, que embora não estejam em plena comunhão com a Igreja Católica,  possuem origem comum na Igreja de Antioquia. Mas afinal, quem são os Siríacos Católicos?


ORIGEM DA IGREJA SÍRIA CATÓLICA

Brasão do Patriarcado Sírio-Católico de Antioquia

Os Siríacos Católicos são os cristãos católicos orientais que, assim como os Maronitas e os Melquitas, também devem sua origem ao Patriarcado de Antioquia.

Como vimos anteriormente, a Igreja Católica é a comunhão de igrejas (comunidades cristãs) que professam a mesma Fé e que estão sujeitas aos mesmos chefes espirituais que as governam (bispos), estes por sua vez unidos entre si e à Igreja de Roma assim como a seu  bispo, o Papa. Nessa Comunhão Católica, podemos dizer que a Igreja possui duas raízes: a ocidental, também chamada latina (ou Romana) e a oriental. Dentro desta segunda, quatro são as sedes patriarcais que marcaram sua história: Jerusalém, AntioquiaAlexandria e ConstantinoplaAs 5 (cinco) sedes patriarcais formariam aquilo que denominamos "pentarquia" (conforme vimos nos artigos anteriores), encabeçada pela Igreja de Roma e o Pontífice Romano: o Papa.

Embora algumas parcelas tenham se apartado da Igreja já após o Concílio de Éfeso (no ano 431), podemos dizer que a Igreja mantinha-se, de certa forma, unida em um único e mesmo corpo até o Concílio de Calcedônia (em 451): Seus 5 grandes Patriarcados ainda permaneciam unidos numa mesma Comunhão de Fé-Doutrina e Hierarquia. Apenas em 451, quando se deu o Concílio de Calcedônia, é que ocorreu a separação de uma grande parcela da Igreja de Cristo: houve um grande número daqueles que não aceitaram as definições do Concílio, os então chamados "monofisitas". Estes, aos poucos conseguiram apossar-se do Patriarcado de Jerusalém (Teodosio em 452), de Alexandria (Timóteo Eluro em 457) e de Antioquia (Pedro Fulão em 470). O imperador Leão I (457 - 474) teve de intervir, depondo-os. A parcela da Igreja que neste artigo nos interessa é a parcela da Igreja do Patriarcado de Antioquia.

Dentro do Patriarcado de Antioquia, no pós Concílio (de Calcedônia), havia portanto dois grupos: aqueles que seguiram a Fé professada neste Concílio, os católicos, também chamados "calcedonianos"; e aqueles que a rejeitaram, posteriormente chamados "jacobitas" (devido ao nome de um dos principais bispos propagadores da fé anti-calcedoniana, Jacob Baradeu).

Com a intervenção do Imperador contra os  que haviam se apossado do Patriarcado de Antioquia, depondo o Patriarca e clero monofisita (ou, numa análise teológica mais profunda,  "miafisita"), estes subsistiram, conservando uma hierarquia que preservou a sucessão apostólica e que se manteve como uma Igreja "paralela" de Antioquia.

Como vimos anteriormente, a intervenção do Imperador acabou por restabelecer Patriarca e clero calcedonianos (católicos). Estes últimos, que se mantiveram fiéis à Fé do Concílio de Calcedônia, vistos pelos outros como "seguidores do Imperador" ou "partidários do Rei", foram apelidados -  a princípio pejorativamente - "reais". Aí está a origem (mèlek) da palavra "Melquita" (cristãos seguidores do rei, ou "reais"). Havia ainda um terceiro grupo de cristãos pertencentes ao Patriarcado de Antioquia que, incrustado nas montanhas libanesas, também havia mantido a Fé Católica Calcedoniana, os quais apresentamos no primeiro de nossa série de artigos sobre as igrejas "sui juris": os Maronitas.

Sendo assim, portanto, passou a existir em Antioquia, três grupos de cristãos: dois entre aqueles que  aceitaram dogmaticamente a Fé católica e ortodoxa professada no Concílio de Calcedônia, que podem ser divididos em Melquitas ("reais", por acatarem as ordens do rei) e Maronitas (por integrarem o povo dos filhos espirituais de São Maron) - ambos católicos - e aqueles que não aceitaram o Concílio de Calcedônia, passando a ser conhecidos como monofisitas (ou mais precisamente, miafisitas) e posteriormente, jacobitas.


MOMENTOS RELEVANTES NA FORMAÇÃO DA IGREJA SIRÍACA

Concílio de Calcedônia

O primeiro momento decisivo foi a precipitação sociopolítica logo após o Concílio de Calcedônia, ocorrido em 451 d.C. Como já foi dito, a sociedade cristã do Oriente Médio dividiu-se fortemente entre aqueles que não aceitaram e os que aceitaram o Concílio: os primeiros, anti-calcedonianos, também chamados "miafisitas" ou "monofisitas", predominaram em diversas províncias,  como a Armênia (dando origem à Igreja Apostólica Armênia) e Egito (dando origem à Igreja Copta Ortodoxa), além de, como estamos vendo, uma parte do Patriarcado de Antioquia. Desde então, passou a haver uma certa alternância entre os Patriarcas de Antioquia: as vezes ascendia ao trono um Patriarca Calcedoniano (católico), as vezes um Patriarca Anti-calcedoniano (miafisita).

Em 518 era então Patriarca Severo,
Severo de Antioquia, venerado
como santo pelos siríacos ortodoxos
que era anti-calcedoniano (miafisita).  Neste ano, o Imperador Bizantino Justino I, decidiu impor a Fé de Calcedônia (católica) de maneira uniforme, estendendo-a a todo o império. Sendo assim, o Patriarca foi deposto pelo imperador, sendo forçado a sair de Antioquia. No lugar de Severo, como novo Patriarca, foi entronizado pelo Imperador um Bispo calcedoniano: Paulo, "o Judeu". Este, portanto, manteve o Patriarcado de Antioquia em comunhão Católica. No entanto, o Patriarca Severo, que fugiu para o Egito (onde a igreja também havia se separado da comunhão Católica dando origem à Igreja Copta Ortodoxa), não estava só: alguns cristãos, tanto do clero quanto do povo, ainda o reconheciam como Patriarca de Antioquia.


A partir de 518, portanto, passou a existir dois grupos provenientes da Igreja de Antioquia dando continuidade à sucessão apostólica que tinham: o primeiro grupo, composto por aqueles que ainda reconheciam Severo como o Patriarca - apesar de sua deposição - e que rejeitavam o que fora definido pelo Concílio de Calcedônia (passaram a denominar-se como Igreja Ortodoxa Siríaca ou Igreja Sirian-Ortodoxa); já o segundo grupo, composto por aqueles que aceitaram o Concílio de Calcedônia, mantendo a Comunhão Católica com Roma, Constantinopla e o Imperador, através do Patriarca Paulo, "o Judeu". O Patriarcado de Antioquia permaneceu Católico, a partir de então chamado Melquita e a doutrina ortodoxa (conforme explanada pelo Papa São Leão Magno em seu "Tomus ad Flavianum", aceita e definida no Concílio de Calcedônia), portanto, permaneceu como a doutrina oficial da Igreja Católica e do Império.

Acontece que a "Igreja Ortodoxa Siríaca", mesmo proscrita, não deixou de existir: em 527 Justiniano ascendeu ao trono de Constantinopla como imperador, sucedendo a seu tio Justino. Sua esposa Teodora, coroada co-imperatriz, detinha grande poder, passando a exercer grande influência em seu reinado. E nessa ocasião, passou a ser verdadeira protetora dos não-calcedonianos, oferecendo inclusive abrigo a bispos não-calcedonianos em seu mosteiro de Constantinopla. Ali organizaram uma espécie de "resistência", com a ajuda da imperatriz, onde passaram a sagrar bispos não-calcedonianos para que viajassem à Síria e ao Oriente a fim de revitalizar a fé miafisita e difundi-la fazendo frente à Fé Católica oficial. Um dos bispos sagrados foi Jacob Baradeus, natural de Edessa, para onde retornou como missionário.


Yacoub Baradeus, também venerado como santo pelos siríacos ortodoxos, que também
passaram a ser chamados "jacobitas" em sua homenagem

A ação deste bispo miafisita foi tão importante para a Igreja Siríaca Ortodoxa, que a partir de então, os cristãos siríacos ortodoxos (miafisitas) também passaram a ser chamados "cristãos jacobitas". Durante aproximadamente 37 anos o Bispo Jacob Baradeus pregou em diversas partes do oriente, sem nunca ter sido preso mesmo com toda a perseguição imperial. Conta-se que tal façanha lhe foi possível por andar sempre vestido em trapos, confundido muitas vezes com mendigo (o apelido Baradeus deriva de "baradai" que significa vestido de trapos). 

Em seu ministério, chegou a ordenar por volta de 27 bispos, além de milhares de sacerdotes, que construíram centenas de igrejas não-calcedonianas, fazendo com que a Igreja Siríaca Ortodoxa crescesse no Oriente, mesmo não tendo aderido à Fé católica e ortodoxa de Calcedônia. Essa Igreja não contestava a legitimidade ou a jurisdição das Igrejas calcedonianas (católicas) mas, ainda assim, construíam seus templos e desenvolviam sua própria hierarquia como uma "Igreja Paralela".

Ainda no século VII, durante este período controverso que foi intensificado pelas invasões árabes, com  o Patriarcado Católico (Melquita) por vezes sendo exercido apenas nominalmente por um Patriarca residente em Constantinopla, como vimos em artigo anterior, fez com que o clero e povo católico de Antioquia elegesse um Patriarca sem a anuência do Imperador, sendo assim estabelecido o Patriarcado Maronita de Antioquia. Pode-se dizer, portanto, que por volta do ano 800 o Patriarcado de Antioquia estava dividido em 2: o Melquita e o Maronita, ambos Católicos e legítimos sucessores. Mas, se considerarmos  aqueles que estavam fora da Comunhão da Igreja, mas que também haviam mantido um Patriarcado de Antioquia com sucessão apostólica (os "jacobitas" Siríacos Ortodoxos), então tínhamos TRÊS. É pois, justamente sobre eles que continuaremos a nos deter.



A CONSOLIDAÇÃO DA IGREJA SIRÍACA CATÓLICA 

Entrada de uma antiga Igreja Siríaca


Ao longo da história, alguns eventos permitiram que cristãos siríacos calcedonianos e não-calcedonianos mantivessem relações, as vezes tensas, as vezes de colaboração.  Durante as cruzadas, alguns bispos siríacos ortodoxos favoreceram uma união com Roma, embora tal esforço tenha se concretizado apenas no decreto de união entre Ortodoxos Siríacos e Roma, assinado em 30 de setembro de 1444, no Concílio de Florença. Infelizmente, nem todos os Bispos Siríacos estavam satisfeitos com essa união, fazendo com que sua oposição, por fim, anulasse todos os efeitos do documento, pouco tempo depois. Vários séculos se passaram com a Igreja Siríaca Ortodoxa a continuar separada de Roma.

No entanto, missionários católicos - tanto orientais (siríacos Maronitas e Melquitas) quanto latinos (capuchinhos e depois jesuítas) em sua missão de evangelização de algumas regiões sírias (havia missionários inclusive em Alepo) acabaram por fazer com que surgisse dentre alguns fiéis siríacos ortodoxos um movimento pró-católico dentro da Igreja Siríaca Ortodoxa. Naqueles anos, vários fiéis acabaram por entrar em plena comunhão com a Igreja de Roma, formando assim a primeira comunidade Católica Síria. Estes, por sua vez, receberam ao Bispo Andrew Akijan, que havia sido consagrado pelo Patriarca Maronita Youhanna Bawab de Safra em 29 de junho de 1656, e o entronizaram como Bispo de Alepo, o que foi confirmado pelo Papa em 28 de janeiro de 1659. Seu episcopado, no entanto, sofreu grande oposição dos siríacos ortodoxos que não queriam a união com Roma, justamente pelo Bispo Akijan ser um ferrenho defensor e propagador dessa união, tendo conseguido incutir tal desejo em grande parte do povo e clero.

Em 1667, com a morte do Patriarca Ortodoxo Sírio, percebeu-se efetivamente a divisão que havia na comunidade síria-ortodoxa: havia aqueles que entendiam ser necessária a união com Roma e os contrário a ela. Por fim, o santo sínodo da Igreja Siríaca escolheu o católico Andrew Akijan, que  então adotou o tradicional nome "Ignatius", como o novo Patriarca da Igreja Ortodoxa Siríaca, o que significaria a plena comunhão desta Igreja com Roma. 


O Patriarca Ignatius Andrew Akijan

A ala contrária à plena comunhão com Roma manteve-se hostil ao novo Patriarca, acabando por eleger - 4 meses depois - seu próprio patriarca, Abdul Masih,  no entanto tal procedimento não teve continuidade, uma vez que a escolha de Akijan fora confirmada e reconhecida, até mesmo pelo Sultão Mehmed IV (havia essa necessidade nas igrejas que encontravam-se sob domínio árabe, com exceção dos Maronitas). Ignatius Akijan pôde finalmente ser entronizado como Patriarca Siríaco de Antioquia, tendo sido reconhecido por Roma em 23 de abril de 1663. Foi Patriarca até sua morte, em 18 de julho de 1677.

Com a morte do Patriarca Akijan, novamente sentiu-se o embate entre aqueles que eram "pró-Roma" e os contrários a qualquer união. No entanto, o Santo Sínodo da Igreja Siríaca-Ortodoxa elegeu em 24 de julho de 1677 a Abdul Masih, que anos antes havia se oposto à eleição do Patriarca Akijan, mas que gozava da confiança tanto da ala "ortodoxa-siríaca" (contrária à união com Roma) quanto agora também da ala "católica-siríaca" (favorável à união com Roma, que era a linha do falecido patriarca). Abdul Masih mostrou à ala católica estar disposto a manter essa comunhão com Roma. No entanto, bastou que sua eleição fosse concretizada e que obtivesse o reconhecimento por parte do Sultão Otomano, para que o Patriarca Masih mostrasse sua real intenção de não manter a comunhão com Roma. Na verdade mostrou-se completamente contrário a essa posição.

A ala católica, isto é, favorável à manutenção da união com Roma, sentiu-se traída pelo então Patriarca e por isso, reuniu-se novamente em sínodo e elegeu o Arcebispo Siríaco de Jerusalém , Gregório Pedro Shahbaddin, que curiosamente era sobrinho do próprio Abdul Masih, como o novo Patriarca Siríaco de Antioquia e todo o Leste dos Sírios.


O Patriarca Ignatius Gregório Pedro VI Shahbaddin

O Patriarca Shahbaddin obteve, com o auxílio do cônsul francês, a confirmação por parte do Sultão Otomano, como o Patriarca Siríaco de Antioquia. Mais tarde, em 12 de junho de 1679, também o Papa Inocêncio XI o confirmou na Sé Patriarcal, concedendo-lhe o Pallium nesta data. Os anos de seu patriarcado foram turbulentos, com muitos conflitos entre o lado "siríaco-ortodoxo" e o lado "siríaco-católico", o que fez com que o Patriarca Shahbaddin fosse "deposto" e reinstalado na sede por 5 vezes! Ignatius Shahbaddin chegou a viajar a Roma em 1696, em busca de apoio e também para angariar fundos, tendo se encontrado com o Papa Inocêncio XII e lá permanecido até 1700. Regressou com o apoio do imperador da Áustria e o Rei da França, sendo reinstalado como Patriarca em 1 de março de 1701, pela 5ª vez. Infelizmente havia uma oposição cada vez mais forte por parte do lado jacobita, que acabou encontrando respaldo por parte do parte das autoridades Otomanas. Em 27 de agosto de 1701, o Patriarca Shahbaddin, o Arcebispo de Alepo Dionísio Amin Kahn Risqallah e a maior parte do clero foram presos, espancados e encarcerados. Em 10 de novembro foram conduzidos pelo exército em marcha forçada ao castelo de Adana. O arcebispo Risqallah faleceu no mesmo dia em que chegou ao castelo, em 18 de novembro.  Sua beatitude, o Patriarca Ignatius Gregório Pedro Shahbaddin VI Shahbaddin, ficou preso até o ano seguinte, quando em 04 de março de 1702, após beber um café oferecido pelo oficial do castelo, veio a falecer - ao que tudo indica - envenenado.

Quando da morte do Patriarca Católico, o governo Otomano apoiou o lado "anti-Roma" contra o lado católico, o que acabou resultando em perseguição aos mesmos durante o decorrer do século XVIII, chegando ao ponto de - em alguns momentos - quase não haver bispos siríacos católicos (unidos à Roma) atuando, forçando a comunidade católica siríaca a ficar totalmente escondida.

O Patriarca Ignatius Michael III Jarwed, o primeiro Patriarca
Siríaco Católico após a separação definitiva da ala
católica da Igreja Siríaca
Algumas décadas depois, em 1782, o Santo Sínodo Ortodoxo Siríaco elegeu o metropolita Michael Jarwed, de Alepo, como Patriarca. Assim que foi oficialmente entronizado, ele se declarou católico e unido ao Papa de Roma. Após tal declaração, Jarweh refugiou-se no Líbano, onde construiu o mosteiro de Nossa Senhora em Sharfeh (ainda existente). Após tal ato, Ignatius Michael Jarwed foi, definitivamente, reconhecido como o Patriarca de Antioquia, inclusive por Roma. Os que não aceitaram sua decisão, por sua vez, elegeram outro patriarca para si. Tal episódio fez com que, a partir de então, a Igreja Siríaca de Antioquia ficasse definitivamente dividida entre os que não aceitaram a união com Roma (Igreja Sirian-Ortodoxa de Antioquia) e os que se uniram a Roma (Igreja Síria Católica de Antioquia). Também ali iniciava-se uma sucessão ininterrupta de Patriarcas Siríacos Católicos. Voltava, portanto, outra parte da Igreja (jacobita) de Antioquia à plena comunhão com a Igreja de Roma, naquela que passou a ser chamada Igreja Síria Católica (ou Igreja Católica Siríaca). Tal Igreja não era nova: havia uma sucessão ininterrupta de Patriarcas e clérigos, desde o Apóstolo Pedro, até o Patriarca Jarwed. O que aconteceu, no entanto, é que até aquele momento, alternavam-se Patriarcas e grupos favoráveis ou contrários à plena comunhão enquanto que, a partir dali, a parte unida à Roma tornou-se independente da parte jacobita, tornando-se Igreja "sui juris" dentro da Igreja católica.  

Em 1845, o governo Otomano concedeu o reconhecimento legal à Igreja Católica Siríaca. A residência patriarcal, que em 1831 havia sido transferida para Alepo, após o Massacre de Alepo em 1850, teve de ser transferida novamente, desta vez para Mardin, em 1854. Com seu reconhecimento oficial pelo governo Otomano, a Igreja Síria Católica se expandiu rapidamente, porém, tal expansão foi encerrada pelas perseguições e massacres que ocorreram durante o genocídio assírio da Primeira Guerra Mundial. Depois disso, a Sé Patriarcal foi transferida para Beirute, longe de Mardin, para a qual muitos cristãos haviam fugido do genocídio. Além da Sé Patriarcal em  Beirute, o seminário patriarcal e a gráfica estão localizados no Mosteiro de Sharfeh, em Sharfeh (Líbano).



O PATRIARCADO SÍRIO CATÓLICO ATÉ NOSSOS DIAS

Sua Beatitude Ignatius Youssef III Younam
Atual Patriarca Siríaco Católico de Antioquia


Devido à importância e grandeza de Santo Inácio de Antioquia, santo este que foi discípulo do evangelista São João, além de sucessor de São Pedro na Sé de Antioquia, os patriarcas siríacos têm a tradição de acrescentar o nome do santo (Ignatius) antes de seu próprio nome quando entronizados como patriarcas. Essa tradição se manteve com os patriarcas siríacos católicos, como podemos ver na sequência de patriarcas após a separação do patriarcado católico do patriarcado jacobita: Ignatius Michael III Jarweh, Ignatius Miguel IV Daher, Ignatius II Zora, Ignatius Pedro VII Jarweh, Ignatius Antonius I Samhiri, Ignatius Filipe I Arqous, Ignatius Jorge V Chelhot, Ignatius Behnan II Benni, Ignatius Ephrem II Rahmani, Ignatius Gabriel I Tappouni, Ignatius Antonius II Hayek, Ignatius Moisés I Daoud, Ignatius Pedro VIII Abdalahad e Ignatius Youssef III Younan, o atual Patriarca.

Eminentes Santos, eruditos, eremitas, mártires e pastores também são provenientes da tradição Siríaca. Mais recentemente, podemos citar Dionísio Bar Salibi (1171), Gregório X Bar Hebraeus (1286) e, ainda mais recentemente, o Bispo Mor Flavianus Michael Malke.

Atualmente, no entanto, há uma grande proximidade e espírito de comunhão fraterna entre o Patriarca Siríaco-Católico e o Patriarca Siríaco-Ortodoxo. 


Ignatius Aphren II Karim, Patriarca Siríaco Ortodoxo de Antioquia e Ignatius Youssef III Younam, Patriarca Siríaco Católico de Antioquia

Os dois Patriarcas de Antioquia estão juntos em diversas ocasiões



ORGANIZAÇÃO DA IGREJA SÍRIO-CATÓLICA


Catedral Siríaca Católica de Nossa Senhora da Assunção - Alepo - Síria

Os hierarcas da Igreja Siríaca produziram uma variedade de escritos acadêmicos em diversos tópicos. Por exemplo, o Patriarca Ignatius Ephrem Rahmani foi amplamente elogiado por seu trabalho em siríaco, tendo sido reconhecido pelo Papa Bento XV como o responsável pelo reconhecimento de Santo Éfrem como Doutor da Igreja. Da mesma forma, o Patriarca Ignatius Behnam II Beni é conhecido como um grande expositor da Teologia Oriental na defesa do primado da Igreja de Roma.

O atual Patriarca dos Sírio-Católicos de Antioquia e todo o leste dos Sírios, Sua Beatitude Ignatius Youssef III Younan, preside a Eparquia Patriarcal de Beirute e lidera espiritualmente toda a Comunidade Católica Siríaca ao redor do mundo. A comunidade inclui:

- Duas Arquieparquias no Iraque.

- Quatro Arquieparquias na Síria.

- Uma Arquieparquia no Egito e Sudão.

- Um vicariato patriarcal em Israel.

- Um vicariato patriarcal na Turquia.

- A Eparquia de Nossa Senhora da Libertação, nos Estados Unidos.

- Exarcado Apostólico no Canadá.

- Exarcado Apostólico na Venezuela.

- Vicariato patriarcal para o Brasil.


A LITURGIA SÍRIO-CATÓLICA 


Sagração Episcopal de Mor Nizar Semaan na Igreja da Imaculada Conceição em Qaraqosh, Iraque, em junho de 2019
Igreja essa sob poder do Estado Islâmico até 2017, ainda não foi totalmente restaurada 

A Igreja Síria Católica utiliza o Rito Antioqueno, rito este enraizado na antiga tradição das igrejas de Jerusalém e Antioquia e que tem laços com a antiga Berakah judaica. É também chamado Rito Siríaco Ocidental.

A Igreja Católica Siríaca segue uma tradição semelhante a outras Igrejas Católicas Orientais que usam o Rito Antioqueno (Siríaco Ocidental), como a Igreja Maronita e a Igreja Siro-Malankar (da Índia), além, é claro, da Igreja cuja origem lhe é comum (a Igreja Sirian-Ortodoxa). Este Rito, como vimos, é claramente distinto do Rito Bizantino, que é o adotado pela Igreja Católica Greco-Melquita e sua contraparte (a Igreja Ortodoxa Grega de Antioquia).

Os sacerdotes siríacos eram tradicionalmente vinculados ao celibato pelo Sínodo local de Sharfeh (1888), mas, atualmente, existem ambas as condições (celibatários e "casados padres").


Sua Beatitude o Patriarca Ignatius Youssef III Younan durante o Sagrado Qurbono, a Santa Missa

O "Qurbono Qadisho" (Santa Missa ou Santo Sacrifício) é praticamente o mesmo celebrado nas igrejas de tradição Siríaca, com algumas nuances que lhe são próprias, por exemplo, o uso das "fãs" (flabelos, ripidia, ripidion ou hexaptérigos) que seriam um tipo de objeto litúrgico composto de uma espécie de vara com um disco metálico em sua extremidade. Tal disco é gravado com serafins em alto relevo e possui pequenos sinos ao seu redor (9 ao todo, representando a ordem dos serafins). Durante o sagrado Qurbono, geralmente celebrado pelo Bispo, estes flabelos são sacudidos por diácono ou acolitos em algumas ocasiões (no momento da Consagração, por exemplo) para simbolizar os Serafins que ali encontram-se a voar diante dos Divinos Mistérios que se celebram. Tal prática não é encontrada na celebração dos Maronitas, por exemplo, que também usam o Rito Siríaco Ocidental, ao passo que pode ser vista na celebração da Divina Liturgia Armênia, o que indica a influência deste Rito Antioqueno.


Sua Beatitude caminha enquanto "flabelos" o acompanham e são sacudidos



IGREJA DE MÁRTIRES

O Bispo Mártir Siríaco  Católico, Beato Flavianus Michael Malke

A história da Igreja Siríaca também é adornada com o sangue dos mártires de Cristo, algo que vêm desde tempos longínquos até nossos dias. Dois exemplos a ser mencionados são, primeiramente  o do Bispo Siríaco Católico da Eparquia de Gazarta (atual Cizer), Mor Flavianus Michael Malke, que foi morto durante o genocídio perpetrado pelo Império Turco-Otomano contra os cristãos, conhecido como Genocídio Assírio ou Genocídio Armênio (Sírios e Armênios foram as maiores vítimas do massacre). O Bispo Flavianus Malke foi preso pelas autoridades otomanas em 28 de agosto de 1915, ao lado do Bispo Caldeu Philippe Jacques Abraham. Lhe foram dadas as opções de converter-se ao Islã e continuar vivo ou então, morrer pela fé em Cristo. O santo Bispo preferiu a segunda opção. Entregou sua alma ao Senhor, executado a tiros, em 29 de agosto de 1915, sendo beatificado em 2015.

Altar da Igreja Siríaca Católica destruído após atentado em 2010 
O segundo exemplo ocorreu em 2010, no dia 31 de outubro, quando 58 siríacos católicos iraquianos foram mortos por extremistas muçulmanos enquanto assistiam à Missa de domingo. Outros 78 ficaram feridos. O ataque perpetrado pelo Estado Islâmico à Congregação da Igreja Siríaca Católica de Nossa Senhora da Libertação foi o ataque mais sangrento a uma igreja cristã iraquiana na história recente.

"O sangue dos mártires é semente de cristãos"

Dois sacerdotes, os padres Saad Abdallah Tha'ir e Waseem Tabeeh, foram mortos. Outro padre, Qatin, ficou gravemente ferido, mas sobreviveu.


A IGREJA SIRÍACA CATÓLICA  NO BRASIL

Os Siríacos Católicos passaram a se fazer presentes no Brasil juntamente com as ondas migratórias dos primeiros sírios e libaneses que aqui chegaram, já em meados de 1869. No entanto, devido ao fato de não terem se organizado em grandes comunidades por aqui, acabaram sendo absorvidos por outros ritos e comunidades católicas também provenientes do oriente (Maronitas e Melquitas).

Tal situação, no entanto, se deu de forma diferente em Belo Horizonte (MG): lá os siríacos católicos conseguiram se organizar em torno da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, localizada na Rua Carandaí, número 1010, no Bairro Funcionários (BH), a Igreja passou a ter como párocos sacerdotes siríacos e, desde então, passou a ser conhecida como a "Igreja dos Siríacos Católicos". Atualmente (já há alguns anos) o pároco é o Padre Siríaco Católico George Rateb Nasais, que também mantém uma casa de acolhimento aos seus irmãos siríacos católicos vindos da Síria, por conta das guerras e perseguições. Todos os domingos há Missa (em siríaco/aramaico) celebrada no Rito Antioqueno (Siríaco Ocidental). Há também um Vicariato Patriarcal para o Brasil.


A Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Igreja dos Siríacos Católicos 

Em 2016, Sua Beatitude Ignatius Youssef III Younan esteve em visita apostólica ao Brasil. Na ocasião, o Patriarca visitou, além de - obviamente - a comunidade católica Siríaca de Belo Horizonte, também Brasília e São Paulo, onde concelebrou uma Santa Missa com o Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer, assim como também visitou o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida.


Sua Beatitude em visita a São Paulo, junto ao Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer

Sua Beatitude visita o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida


Sua Beatitude com o Papa João Paulo II

Com o Papa Bento XVI


Recentemente, com o Papa Francisco

Esperamos que com este simples artigo possamos, de alguma forma, contribuir para que mais e mais católicos conheçam e amem as riquezas do Oriente Católico, o lado oriental da Santa Igreja Católica.



Viva a Igreja Siríaca! Viva a Igreja Católica!