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domingo, 27 de outubro de 2019

Igrejas Católicas Orientais: 04 - A IGREJA SIRÍACA CATÓLICA

Ruína de uma das muitas Igrejas na Síria, destruídas pelos ataques promovidos pelo Isis, como também pelas guerras que assolam a região

Igreja Síria Católica, em siríaco (ܥܕܬܐ ܣܘܪܝܝܬܐ ܩܬܘܠܝܩܝܬܐ), também chamada Igreja Católica Siríaca, ou Patriarcado Católico Siríaco de Antioquia, é uma das 23 igrejas orientais ditas "sui juris", isto é, "autônomas", em plena comunhão com a Sé Apostólica de Roma. Isto significa, portanto, que a Igreja Síria Católica reconhece a autoridade do Papa como sumo pontífice, pai e líder de todos os católicos do orbe.

Há, atualmente, pouco mais de duzentos mil Católicos Siríacos em todo o mundo, dos quais uma grande parte encontra-se na Síria, no Líbano, no Iraque, na Turquia, em Israel, na Palestina e demais territórios do Oriente Médio e Próximo. Há também siríacos católicos espalhados por diversos países do mundo, tanto na Europa quanto nas Américas, sobretudo por fugirem das constantes perseguições aos cristãos em seus países de origem. Ainda assim, outros tantos Católicos identificam-se com os Siríacos Católicos por laços históricos ou por ligação que mantêm pelo Rito Siríaco Antioqueno: Maronitas, Siro-Malankares (Índia) além dos Siríacos Ortodoxos, que embora não estejam em plena comunhão com a Igreja Católica,  possuem origem comum na Igreja de Antioquia. Mas afinal, quem são os Siríacos Católicos?


ORIGEM DA IGREJA SÍRIA CATÓLICA

Brasão do Patriarcado Sírio-Católico de Antioquia

Os Siríacos Católicos são os cristãos católicos orientais que, assim como os Maronitas e os Melquitas, também devem sua origem ao Patriarcado de Antioquia.

Como vimos anteriormente, a Igreja Católica é a comunhão de igrejas (comunidades cristãs) que professam a mesma Fé e que estão sujeitas aos mesmos chefes espirituais que as governam (bispos), estes por sua vez unidos entre si e à Igreja de Roma assim como a seu  bispo, o Papa. Nessa Comunhão Católica, podemos dizer que a Igreja possui duas raízes: a ocidental, também chamada latina (ou Romana) e a oriental. Dentro desta segunda, quatro são as sedes patriarcais que marcaram sua história: Jerusalém, AntioquiaAlexandria e ConstantinoplaAs 5 (cinco) sedes patriarcais formariam aquilo que denominamos "pentarquia" (conforme vimos nos artigos anteriores), encabeçada pela Igreja de Roma e o Pontífice Romano: o Papa.

Embora algumas parcelas tenham se apartado da Igreja já após o Concílio de Éfeso (no ano 431), podemos dizer que a Igreja mantinha-se, de certa forma, unida em um único e mesmo corpo até o Concílio de Calcedônia (em 451): Seus 5 grandes Patriarcados ainda permaneciam unidos numa mesma Comunhão de Fé-Doutrina e Hierarquia. Apenas em 451, quando se deu o Concílio de Calcedônia, é que ocorreu a separação de uma grande parcela da Igreja de Cristo: houve um grande número daqueles que não aceitaram as definições do Concílio, os então chamados "monofisitas". Estes, aos poucos conseguiram apossar-se do Patriarcado de Jerusalém (Teodosio em 452), de Alexandria (Timóteo Eluro em 457) e de Antioquia (Pedro Fulão em 470). O imperador Leão I (457 - 474) teve de intervir, depondo-os. A parcela da Igreja que neste artigo nos interessa é a parcela da Igreja do Patriarcado de Antioquia.

Dentro do Patriarcado de Antioquia, no pós Concílio (de Calcedônia), havia portanto dois grupos: aqueles que seguiram a Fé professada neste Concílio, os católicos, também chamados "calcedonianos"; e aqueles que a rejeitaram, posteriormente chamados "jacobitas" (devido ao nome de um dos principais bispos propagadores da fé anti-calcedoniana, Jacob Baradeu).

Com a intervenção do Imperador contra os  que haviam se apossado do Patriarcado de Antioquia, depondo o Patriarca e clero monofisita (ou, numa análise teológica mais profunda,  "miafisita"), estes subsistiram, conservando uma hierarquia que preservou a sucessão apostólica e que se manteve como uma Igreja "paralela" de Antioquia.

Como vimos anteriormente, a intervenção do Imperador acabou por restabelecer Patriarca e clero calcedonianos (católicos). Estes últimos, que se mantiveram fiéis à Fé do Concílio de Calcedônia, vistos pelos outros como "seguidores do Imperador" ou "partidários do Rei", foram apelidados -  a princípio pejorativamente - "reais". Aí está a origem (mèlek) da palavra "Melquita" (cristãos seguidores do rei, ou "reais"). Havia ainda um terceiro grupo de cristãos pertencentes ao Patriarcado de Antioquia que, incrustado nas montanhas libanesas, também havia mantido a Fé Católica Calcedoniana, os quais apresentamos no primeiro de nossa série de artigos sobre as igrejas "sui juris": os Maronitas.

Sendo assim, portanto, passou a existir em Antioquia, três grupos de cristãos: dois entre aqueles que  aceitaram dogmaticamente a Fé católica e ortodoxa professada no Concílio de Calcedônia, que podem ser divididos em Melquitas ("reais", por acatarem as ordens do rei) e Maronitas (por integrarem o povo dos filhos espirituais de São Maron) - ambos católicos - e aqueles que não aceitaram o Concílio de Calcedônia, passando a ser conhecidos como monofisitas (ou mais precisamente, miafisitas) e posteriormente, jacobitas.


MOMENTOS RELEVANTES NA FORMAÇÃO DA IGREJA SIRÍACA

Concílio de Calcedônia

O primeiro momento decisivo foi a precipitação sociopolítica logo após o Concílio de Calcedônia, ocorrido em 451 d.C. Como já foi dito, a sociedade cristã do Oriente Médio dividiu-se fortemente entre aqueles que não aceitaram e os que aceitaram o Concílio: os primeiros, anti-calcedonianos, também chamados "miafisitas" ou "monofisitas", predominaram em diversas províncias,  como a Armênia (dando origem à Igreja Apostólica Armênia) e Egito (dando origem à Igreja Copta Ortodoxa), além de, como estamos vendo, uma parte do Patriarcado de Antioquia. Desde então, passou a haver uma certa alternância entre os Patriarcas de Antioquia: as vezes ascendia ao trono um Patriarca Calcedoniano (católico), as vezes um Patriarca Anti-calcedoniano (miafisita).

Em 518 era então Patriarca Severo,
Severo de Antioquia, venerado
como santo pelos siríacos ortodoxos
que era anti-calcedoniano (miafisita).  Neste ano, o Imperador Bizantino Justino I, decidiu impor a Fé de Calcedônia (católica) de maneira uniforme, estendendo-a a todo o império. Sendo assim, o Patriarca foi deposto pelo imperador, sendo forçado a sair de Antioquia. No lugar de Severo, como novo Patriarca, foi entronizado pelo Imperador um Bispo calcedoniano: Paulo, "o Judeu". Este, portanto, manteve o Patriarcado de Antioquia em comunhão Católica. No entanto, o Patriarca Severo, que fugiu para o Egito (onde a igreja também havia se separado da comunhão Católica dando origem à Igreja Copta Ortodoxa), não estava só: alguns cristãos, tanto do clero quanto do povo, ainda o reconheciam como Patriarca de Antioquia.


A partir de 518, portanto, passou a existir dois grupos provenientes da Igreja de Antioquia dando continuidade à sucessão apostólica que tinham: o primeiro grupo, composto por aqueles que ainda reconheciam Severo como o Patriarca - apesar de sua deposição - e que rejeitavam o que fora definido pelo Concílio de Calcedônia (passaram a denominar-se como Igreja Ortodoxa Siríaca ou Igreja Sirian-Ortodoxa); já o segundo grupo, composto por aqueles que aceitaram o Concílio de Calcedônia, mantendo a Comunhão Católica com Roma, Constantinopla e o Imperador, através do Patriarca Paulo, "o Judeu". O Patriarcado de Antioquia permaneceu Católico, a partir de então chamado Melquita e a doutrina ortodoxa (conforme explanada pelo Papa São Leão Magno em seu "Tomus ad Flavianum", aceita e definida no Concílio de Calcedônia), portanto, permaneceu como a doutrina oficial da Igreja Católica e do Império.

Acontece que a "Igreja Ortodoxa Siríaca", mesmo proscrita, não deixou de existir: em 527 Justiniano ascendeu ao trono de Constantinopla como imperador, sucedendo a seu tio Justino. Sua esposa Teodora, coroada co-imperatriz, detinha grande poder, passando a exercer grande influência em seu reinado. E nessa ocasião, passou a ser verdadeira protetora dos não-calcedonianos, oferecendo inclusive abrigo a bispos não-calcedonianos em seu mosteiro de Constantinopla. Ali organizaram uma espécie de "resistência", com a ajuda da imperatriz, onde passaram a sagrar bispos não-calcedonianos para que viajassem à Síria e ao Oriente a fim de revitalizar a fé miafisita e difundi-la fazendo frente à Fé Católica oficial. Um dos bispos sagrados foi Jacob Baradeus, natural de Edessa, para onde retornou como missionário.


Yacoub Baradeus, também venerado como santo pelos siríacos ortodoxos, que também
passaram a ser chamados "jacobitas" em sua homenagem

A ação deste bispo miafisita foi tão importante para a Igreja Siríaca Ortodoxa, que a partir de então, os cristãos siríacos ortodoxos (miafisitas) também passaram a ser chamados "cristãos jacobitas". Durante aproximadamente 37 anos o Bispo Jacob Baradeus pregou em diversas partes do oriente, sem nunca ter sido preso mesmo com toda a perseguição imperial. Conta-se que tal façanha lhe foi possível por andar sempre vestido em trapos, confundido muitas vezes com mendigo (o apelido Baradeus deriva de "baradai" que significa vestido de trapos). 

Em seu ministério, chegou a ordenar por volta de 27 bispos, além de milhares de sacerdotes, que construíram centenas de igrejas não-calcedonianas, fazendo com que a Igreja Siríaca Ortodoxa crescesse no Oriente, mesmo não tendo aderido à Fé católica e ortodoxa de Calcedônia. Essa Igreja não contestava a legitimidade ou a jurisdição das Igrejas calcedonianas (católicas) mas, ainda assim, construíam seus templos e desenvolviam sua própria hierarquia como uma "Igreja Paralela".

Ainda no século VII, durante este período controverso que foi intensificado pelas invasões árabes, com  o Patriarcado Católico (Melquita) por vezes sendo exercido apenas nominalmente por um Patriarca residente em Constantinopla, como vimos em artigo anterior, fez com que o clero e povo católico de Antioquia elegesse um Patriarca sem a anuência do Imperador, sendo assim estabelecido o Patriarcado Maronita de Antioquia. Pode-se dizer, portanto, que por volta do ano 800 o Patriarcado de Antioquia estava dividido em 2: o Melquita e o Maronita, ambos Católicos e legítimos sucessores. Mas, se considerarmos  aqueles que estavam fora da Comunhão da Igreja, mas que também haviam mantido um Patriarcado de Antioquia com sucessão apostólica (os "jacobitas" Siríacos Ortodoxos), então tínhamos TRÊS. É pois, justamente sobre eles que continuaremos a nos deter.



A CONSOLIDAÇÃO DA IGREJA SIRÍACA CATÓLICA 

Entrada de uma antiga Igreja Siríaca


Ao longo da história, alguns eventos permitiram que cristãos siríacos calcedonianos e não-calcedonianos mantivessem relações, as vezes tensas, as vezes de colaboração.  Durante as cruzadas, alguns bispos siríacos ortodoxos favoreceram uma união com Roma, embora tal esforço tenha se concretizado apenas no decreto de união entre Ortodoxos Siríacos e Roma, assinado em 30 de setembro de 1444, no Concílio de Florença. Infelizmente, nem todos os Bispos Siríacos estavam satisfeitos com essa união, fazendo com que sua oposição, por fim, anulasse todos os efeitos do documento, pouco tempo depois. Vários séculos se passaram com a Igreja Siríaca Ortodoxa a continuar separada de Roma.

No entanto, missionários católicos - tanto orientais (siríacos Maronitas e Melquitas) quanto latinos (capuchinhos e depois jesuítas) em sua missão de evangelização de algumas regiões sírias (havia missionários inclusive em Alepo) acabaram por fazer com que surgisse dentre alguns fiéis siríacos ortodoxos um movimento pró-católico dentro da Igreja Siríaca Ortodoxa. Naqueles anos, vários fiéis acabaram por entrar em plena comunhão com a Igreja de Roma, formando assim a primeira comunidade Católica Síria. Estes, por sua vez, receberam ao Bispo Andrew Akijan, que havia sido consagrado pelo Patriarca Maronita Youhanna Bawab de Safra em 29 de junho de 1656, e o entronizaram como Bispo de Alepo, o que foi confirmado pelo Papa em 28 de janeiro de 1659. Seu episcopado, no entanto, sofreu grande oposição dos siríacos ortodoxos que não queriam a união com Roma, justamente pelo Bispo Akijan ser um ferrenho defensor e propagador dessa união, tendo conseguido incutir tal desejo em grande parte do povo e clero.

Em 1667, com a morte do Patriarca Ortodoxo Sírio, percebeu-se efetivamente a divisão que havia na comunidade síria-ortodoxa: havia aqueles que entendiam ser necessária a união com Roma e os contrário a ela. Por fim, o santo sínodo da Igreja Siríaca escolheu o católico Andrew Akijan, que  então adotou o tradicional nome "Ignatius", como o novo Patriarca da Igreja Ortodoxa Siríaca, o que significaria a plena comunhão desta Igreja com Roma. 


O Patriarca Ignatius Andrew Akijan

A ala contrária à plena comunhão com Roma manteve-se hostil ao novo Patriarca, acabando por eleger - 4 meses depois - seu próprio patriarca, Abdul Masih,  no entanto tal procedimento não teve continuidade, uma vez que a escolha de Akijan fora confirmada e reconhecida, até mesmo pelo Sultão Mehmed IV (havia essa necessidade nas igrejas que encontravam-se sob domínio árabe, com exceção dos Maronitas). Ignatius Akijan pôde finalmente ser entronizado como Patriarca Siríaco de Antioquia, tendo sido reconhecido por Roma em 23 de abril de 1663. Foi Patriarca até sua morte, em 18 de julho de 1677.

Com a morte do Patriarca Akijan, novamente sentiu-se o embate entre aqueles que eram "pró-Roma" e os contrários a qualquer união. No entanto, o Santo Sínodo da Igreja Siríaca-Ortodoxa elegeu em 24 de julho de 1677 a Abdul Masih, que anos antes havia se oposto à eleição do Patriarca Akijan, mas que gozava da confiança tanto da ala "ortodoxa-siríaca" (contrária à união com Roma) quanto agora também da ala "católica-siríaca" (favorável à união com Roma, que era a linha do falecido patriarca). Abdul Masih mostrou à ala católica estar disposto a manter essa comunhão com Roma. No entanto, bastou que sua eleição fosse concretizada e que obtivesse o reconhecimento por parte do Sultão Otomano, para que o Patriarca Masih mostrasse sua real intenção de não manter a comunhão com Roma. Na verdade mostrou-se completamente contrário a essa posição.

A ala católica, isto é, favorável à manutenção da união com Roma, sentiu-se traída pelo então Patriarca e por isso, reuniu-se novamente em sínodo e elegeu o Arcebispo Siríaco de Jerusalém , Gregório Pedro Shahbaddin, que curiosamente era sobrinho do próprio Abdul Masih, como o novo Patriarca Siríaco de Antioquia e todo o Leste dos Sírios.


O Patriarca Ignatius Gregório Pedro VI Shahbaddin

O Patriarca Shahbaddin obteve, com o auxílio do cônsul francês, a confirmação por parte do Sultão Otomano, como o Patriarca Siríaco de Antioquia. Mais tarde, em 12 de junho de 1679, também o Papa Inocêncio XI o confirmou na Sé Patriarcal, concedendo-lhe o Pallium nesta data. Os anos de seu patriarcado foram turbulentos, com muitos conflitos entre o lado "siríaco-ortodoxo" e o lado "siríaco-católico", o que fez com que o Patriarca Shahbaddin fosse "deposto" e reinstalado na sede por 5 vezes! Ignatius Shahbaddin chegou a viajar a Roma em 1696, em busca de apoio e também para angariar fundos, tendo se encontrado com o Papa Inocêncio XII e lá permanecido até 1700. Regressou com o apoio do imperador da Áustria e o Rei da França, sendo reinstalado como Patriarca em 1 de março de 1701, pela 5ª vez. Infelizmente havia uma oposição cada vez mais forte por parte do lado jacobita, que acabou encontrando respaldo por parte do parte das autoridades Otomanas. Em 27 de agosto de 1701, o Patriarca Shahbaddin, o Arcebispo de Alepo Dionísio Amin Kahn Risqallah e a maior parte do clero foram presos, espancados e encarcerados. Em 10 de novembro foram conduzidos pelo exército em marcha forçada ao castelo de Adana. O arcebispo Risqallah faleceu no mesmo dia em que chegou ao castelo, em 18 de novembro.  Sua beatitude, o Patriarca Ignatius Gregório Pedro Shahbaddin VI Shahbaddin, ficou preso até o ano seguinte, quando em 04 de março de 1702, após beber um café oferecido pelo oficial do castelo, veio a falecer - ao que tudo indica - envenenado.

Quando da morte do Patriarca Católico, o governo Otomano apoiou o lado "anti-Roma" contra o lado católico, o que acabou resultando em perseguição aos mesmos durante o decorrer do século XVIII, chegando ao ponto de - em alguns momentos - quase não haver bispos siríacos católicos (unidos à Roma) atuando, forçando a comunidade católica siríaca a ficar totalmente escondida.

O Patriarca Ignatius Michael III Jarwed, o primeiro Patriarca
Siríaco Católico após a separação definitiva da ala
católica da Igreja Siríaca
Algumas décadas depois, em 1782, o Santo Sínodo Ortodoxo Siríaco elegeu o metropolita Michael Jarwed, de Alepo, como Patriarca. Assim que foi oficialmente entronizado, ele se declarou católico e unido ao Papa de Roma. Após tal declaração, Jarweh refugiou-se no Líbano, onde construiu o mosteiro de Nossa Senhora em Sharfeh (ainda existente). Após tal ato, Ignatius Michael Jarwed foi, definitivamente, reconhecido como o Patriarca de Antioquia, inclusive por Roma. Os que não aceitaram sua decisão, por sua vez, elegeram outro patriarca para si. Tal episódio fez com que, a partir de então, a Igreja Siríaca de Antioquia ficasse definitivamente dividida entre os que não aceitaram a união com Roma (Igreja Sirian-Ortodoxa de Antioquia) e os que se uniram a Roma (Igreja Síria Católica de Antioquia). Também ali iniciava-se uma sucessão ininterrupta de Patriarcas Siríacos Católicos. Voltava, portanto, outra parte da Igreja (jacobita) de Antioquia à plena comunhão com a Igreja de Roma, naquela que passou a ser chamada Igreja Síria Católica (ou Igreja Católica Siríaca). Tal Igreja não era nova: havia uma sucessão ininterrupta de Patriarcas e clérigos, desde o Apóstolo Pedro, até o Patriarca Jarwed. O que aconteceu, no entanto, é que até aquele momento, alternavam-se Patriarcas e grupos favoráveis ou contrários à plena comunhão enquanto que, a partir dali, a parte unida à Roma tornou-se independente da parte jacobita, tornando-se Igreja "sui juris" dentro da Igreja católica.  

Em 1845, o governo Otomano concedeu o reconhecimento legal à Igreja Católica Siríaca. A residência patriarcal, que em 1831 havia sido transferida para Alepo, após o Massacre de Alepo em 1850, teve de ser transferida novamente, desta vez para Mardin, em 1854. Com seu reconhecimento oficial pelo governo Otomano, a Igreja Síria Católica se expandiu rapidamente, porém, tal expansão foi encerrada pelas perseguições e massacres que ocorreram durante o genocídio assírio da Primeira Guerra Mundial. Depois disso, a Sé Patriarcal foi transferida para Beirute, longe de Mardin, para a qual muitos cristãos haviam fugido do genocídio. Além da Sé Patriarcal em  Beirute, o seminário patriarcal e a gráfica estão localizados no Mosteiro de Sharfeh, em Sharfeh (Líbano).



O PATRIARCADO SÍRIO CATÓLICO ATÉ NOSSOS DIAS

Sua Beatitude Ignatius Youssef III Younam
Atual Patriarca Siríaco Católico de Antioquia


Devido à importância e grandeza de Santo Inácio de Antioquia, santo este que foi discípulo do evangelista São João, além de sucessor de São Pedro na Sé de Antioquia, os patriarcas siríacos têm a tradição de acrescentar o nome do santo (Ignatius) antes de seu próprio nome quando entronizados como patriarcas. Essa tradição se manteve com os patriarcas siríacos católicos, como podemos ver na sequência de patriarcas após a separação do patriarcado católico do patriarcado jacobita: Ignatius Michael III Jarweh, Ignatius Miguel IV Daher, Ignatius II Zora, Ignatius Pedro VII Jarweh, Ignatius Antonius I Samhiri, Ignatius Filipe I Arqous, Ignatius Jorge V Chelhot, Ignatius Behnan II Benni, Ignatius Ephrem II Rahmani, Ignatius Gabriel I Tappouni, Ignatius Antonius II Hayek, Ignatius Moisés I Daoud, Ignatius Pedro VIII Abdalahad e Ignatius Youssef III Younan, o atual Patriarca.

Eminentes Santos, eruditos, eremitas, mártires e pastores também são provenientes da tradição Siríaca. Mais recentemente, podemos citar Dionísio Bar Salibi (1171), Gregório X Bar Hebraeus (1286) e, ainda mais recentemente, o Bispo Mor Flavianus Michael Malke.

Atualmente, no entanto, há uma grande proximidade e espírito de comunhão fraterna entre o Patriarca Siríaco-Católico e o Patriarca Siríaco-Ortodoxo. 


Ignatius Aphren II Karim, Patriarca Siríaco Ortodoxo de Antioquia e Ignatius Youssef III Younam, Patriarca Siríaco Católico de Antioquia

Os dois Patriarcas de Antioquia estão juntos em diversas ocasiões



ORGANIZAÇÃO DA IGREJA SÍRIO-CATÓLICA


Catedral Siríaca Católica de Nossa Senhora da Assunção - Alepo - Síria

Os hierarcas da Igreja Siríaca produziram uma variedade de escritos acadêmicos em diversos tópicos. Por exemplo, o Patriarca Ignatius Ephrem Rahmani foi amplamente elogiado por seu trabalho em siríaco, tendo sido reconhecido pelo Papa Bento XV como o responsável pelo reconhecimento de Santo Éfrem como Doutor da Igreja. Da mesma forma, o Patriarca Ignatius Behnam II Beni é conhecido como um grande expositor da Teologia Oriental na defesa do primado da Igreja de Roma.

O atual Patriarca dos Sírio-Católicos de Antioquia e todo o leste dos Sírios, Sua Beatitude Ignatius Youssef III Younan, preside a Eparquia Patriarcal de Beirute e lidera espiritualmente toda a Comunidade Católica Siríaca ao redor do mundo. A comunidade inclui:

- Duas Arquieparquias no Iraque.

- Quatro Arquieparquias na Síria.

- Uma Arquieparquia no Egito e Sudão.

- Um vicariato patriarcal em Israel.

- Um vicariato patriarcal na Turquia.

- A Eparquia de Nossa Senhora da Libertação, nos Estados Unidos.

- Exarcado Apostólico no Canadá.

- Exarcado Apostólico na Venezuela.

- Vicariato patriarcal para o Brasil.


A LITURGIA SÍRIO-CATÓLICA 


Sagração Episcopal de Mor Nizar Semaan na Igreja da Imaculada Conceição em Qaraqosh, Iraque, em junho de 2019
Igreja essa sob poder do Estado Islâmico até 2017, ainda não foi totalmente restaurada 

A Igreja Síria Católica utiliza o Rito Antioqueno, rito este enraizado na antiga tradição das igrejas de Jerusalém e Antioquia e que tem laços com a antiga Berakah judaica. É também chamado Rito Siríaco Ocidental.

A Igreja Católica Siríaca segue uma tradição semelhante a outras Igrejas Católicas Orientais que usam o Rito Antioqueno (Siríaco Ocidental), como a Igreja Maronita e a Igreja Siro-Malankar (da Índia), além, é claro, da Igreja cuja origem lhe é comum (a Igreja Sirian-Ortodoxa). Este Rito, como vimos, é claramente distinto do Rito Bizantino, que é o adotado pela Igreja Católica Greco-Melquita e sua contraparte (a Igreja Ortodoxa Grega de Antioquia).

Os sacerdotes siríacos eram tradicionalmente vinculados ao celibato pelo Sínodo local de Sharfeh (1888), mas, atualmente, existem ambas as condições (celibatários e "casados padres").


Sua Beatitude o Patriarca Ignatius Youssef III Younan durante o Sagrado Qurbono, a Santa Missa

O "Qurbono Qadisho" (Santa Missa ou Santo Sacrifício) é praticamente o mesmo celebrado nas igrejas de tradição Siríaca, com algumas nuances que lhe são próprias, por exemplo, o uso das "fãs" (flabelos, ripidia, ripidion ou hexaptérigos) que seriam um tipo de objeto litúrgico composto de uma espécie de vara com um disco metálico em sua extremidade. Tal disco é gravado com serafins em alto relevo e possui pequenos sinos ao seu redor (9 ao todo, representando a ordem dos serafins). Durante o sagrado Qurbono, geralmente celebrado pelo Bispo, estes flabelos são sacudidos por diácono ou acolitos em algumas ocasiões (no momento da Consagração, por exemplo) para simbolizar os Serafins que ali encontram-se a voar diante dos Divinos Mistérios que se celebram. Tal prática não é encontrada na celebração dos Maronitas, por exemplo, que também usam o Rito Siríaco Ocidental, ao passo que pode ser vista na celebração da Divina Liturgia Armênia, o que indica a influência deste Rito Antioqueno.


Sua Beatitude caminha enquanto "flabelos" o acompanham e são sacudidos



IGREJA DE MÁRTIRES

O Bispo Mártir Siríaco  Católico, Beato Flavianus Michael Malke

A história da Igreja Siríaca também é adornada com o sangue dos mártires de Cristo, algo que vêm desde tempos longínquos até nossos dias. Dois exemplos a ser mencionados são, primeiramente  o do Bispo Siríaco Católico da Eparquia de Gazarta (atual Cizer), Mor Flavianus Michael Malke, que foi morto durante o genocídio perpetrado pelo Império Turco-Otomano contra os cristãos, conhecido como Genocídio Assírio ou Genocídio Armênio (Sírios e Armênios foram as maiores vítimas do massacre). O Bispo Flavianus Malke foi preso pelas autoridades otomanas em 28 de agosto de 1915, ao lado do Bispo Caldeu Philippe Jacques Abraham. Lhe foram dadas as opções de converter-se ao Islã e continuar vivo ou então, morrer pela fé em Cristo. O santo Bispo preferiu a segunda opção. Entregou sua alma ao Senhor, executado a tiros, em 29 de agosto de 1915, sendo beatificado em 2015.

Altar da Igreja Siríaca Católica destruído após atentado em 2010 
O segundo exemplo ocorreu em 2010, no dia 31 de outubro, quando 58 siríacos católicos iraquianos foram mortos por extremistas muçulmanos enquanto assistiam à Missa de domingo. Outros 78 ficaram feridos. O ataque perpetrado pelo Estado Islâmico à Congregação da Igreja Siríaca Católica de Nossa Senhora da Libertação foi o ataque mais sangrento a uma igreja cristã iraquiana na história recente.

"O sangue dos mártires é semente de cristãos"

Dois sacerdotes, os padres Saad Abdallah Tha'ir e Waseem Tabeeh, foram mortos. Outro padre, Qatin, ficou gravemente ferido, mas sobreviveu.


A IGREJA SIRÍACA CATÓLICA  NO BRASIL

Os Siríacos Católicos passaram a se fazer presentes no Brasil juntamente com as ondas migratórias dos primeiros sírios e libaneses que aqui chegaram, já em meados de 1869. No entanto, devido ao fato de não terem se organizado em grandes comunidades por aqui, acabaram sendo absorvidos por outros ritos e comunidades católicas também provenientes do oriente (Maronitas e Melquitas).

Tal situação, no entanto, se deu de forma diferente em Belo Horizonte (MG): lá os siríacos católicos conseguiram se organizar em torno da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, localizada na Rua Carandaí, número 1010, no Bairro Funcionários (BH), a Igreja passou a ter como párocos sacerdotes siríacos e, desde então, passou a ser conhecida como a "Igreja dos Siríacos Católicos". Atualmente (já há alguns anos) o pároco é o Padre Siríaco Católico George Rateb Nasais, que também mantém uma casa de acolhimento aos seus irmãos siríacos católicos vindos da Síria, por conta das guerras e perseguições. Todos os domingos há Missa (em siríaco/aramaico) celebrada no Rito Antioqueno (Siríaco Ocidental). Há também um Vicariato Patriarcal para o Brasil.


A Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Igreja dos Siríacos Católicos 

Em 2016, Sua Beatitude Ignatius Youssef III Younan esteve em visita apostólica ao Brasil. Na ocasião, o Patriarca visitou, além de - obviamente - a comunidade católica Siríaca de Belo Horizonte, também Brasília e São Paulo, onde concelebrou uma Santa Missa com o Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer, assim como também visitou o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida.


Sua Beatitude em visita a São Paulo, junto ao Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer

Sua Beatitude visita o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida


Sua Beatitude com o Papa João Paulo II

Com o Papa Bento XVI


Recentemente, com o Papa Francisco

Esperamos que com este simples artigo possamos, de alguma forma, contribuir para que mais e mais católicos conheçam e amem as riquezas do Oriente Católico, o lado oriental da Santa Igreja Católica.



Viva a Igreja Siríaca! Viva a Igreja Católica!

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Igrejas Católicas Orientais: 02 - A IGREJA MARONITA


Monges Maronitas - foto de (aproximadamente) 1880

A Igreja Siríaca Maronita de Antioquia, em Siríaco (ܥܕܬܐ ܣܘܪܝܝܬܐ ܡܪܘܢܝܬܐ ܕܐܢܛܝܘܟܝܐ) e em árabe (الكنيسة الأنطاكية السريانية المارونية), também chamada Igreja Católica Maronita ou simplesmente Igreja Maronita é umas das 23 igrejas orientais ditas "sui juris", isto é, "autônomas", em plena comunhão com a Sé Apostólica de Roma, portanto, que reconhece a autoridade do Papa como sumo pontífice e líder de todos os católicos. Há, atualmente, entre 3 e 4 milhões de Maronitas em todo o mundo, dos quais em torno de 1 milhão e meio encontra-se no Líbano. Mas afinal, quem são os Maronitas?

Coat of Arms of the Maronite Patriarchate.svg
Brasão inscrito em siríaco e latim: "A glória do Líbano lhe foi dada" (Isaías 35,2) referindo-se aqui ao Patriarca Maronita

ORIGEM DA IGREJA MARONITA

Os maronitas são os cristãos católicos orientais que devem seu nome a São Maron. Em documentos siríacos muito antigos, podemos ler os seguintes vocábulos: Os fiéis de Beth (casa) Maron, Calcedônios (isto é, seguidores do Concílio de Calcedônia) de Beth Maron, aqueles de Mar Maron, seguidores ou filhos de Mar Maron. Esses vocábulos convergem todos para uma única palavra que os representará: a palavra MARONITA. Essa palavra referir-se-á ao povo que no Patriarcado de Antioquia seguiu a orientação religiosa de São Maron e seus discípulos.

Como vimos anteriormente, a Igreja Católica é a comunhão de igrejas (comunidades cristãs) que professam a mesma Fé e que estão sujeitas aos mesmos chefes espirituais que as governam (bispos), estes por sua vez unidos entre si e à Igreja de Roma e ao seu  bispo, o Papa. Nessa Comunhão, podemos dizer que a Igreja possui duas raízes: a ocidental, também chamada latina (ou Romana) e a oriental. Dentro desta segunda, quatro são as sedes patriarcais que marcaram sua história: Jerusalém, Antioquia, Alexandria e Constantinopla. As 5 (cinco) sedes patriarcais formariam aquilo que denominamos "pentarquia" (conforme vimos no artigo anterior), encabeçada pela Igreja de Roma e o Pontífice Romano, o Bispo de Roma: o Papa.

Embora algumas parcelas tenham se apartado da Igreja já após o Concílio de Éfeso (no ano 431), podemos dizer que a Igreja mantinha-se, de certa forma, unida em um único e mesmo corpo até o Concílio de Calcedônia (em 451): Seus 5 grandes Patriarcados ainda permaneciam unidos numa mesma Comunhão de Fé-Doutrina e Hierarquia. Apenas em 451, quando se deu o Concílio de Calcedônia, é que se deu a separação de uma grande parcela da Igreja de Cristo: houve um grande número daqueles que não aceitaram as definições do Concílio, os então chamados "monofisitas". Estes, aos poucos conseguiram apossar-se do Patriarcado de Jerusalém (Teodosio em 452), de Alexandria (Timóteo Eluro em 457) e de Antioquia (Pedro Fulão em 470). O imperador Leão I (457 - 474) teve de intervir, depondo-os. A parcela que neste artigo nos interessa é a parcela da Igreja do Patriarcado de Antioquia.

Dentro do Patriarcado de Antioquia, no pós Concílio (de Calcedônia), havia portanto dois grupos: aqueles que seguiram a Fé professada neste Concílio, os católicos, também chamados "calcedonianos"; e aqueles que a rejeitaram, posteriormente chamados "jacobitas" (devido ao nome de um dos principais bispos propagadores da fé anti-calcedoniana, Jacob Baradeu).

Com a intervenção do Imperador contra os  que haviam se apossado do Patriarcado de Antioquia, depondo o Patriarca e clero monofisita (estes subsistiram naquela que hoje é chamada Igreja Sirian-Ortodoxa de Antioquia) e restabelecendo Patriarca e clero calcedonianos (católicos), estes últimos que se mantiveram fiéis à Fé do Concílio de Calcedônia, vistos pelos outros como "seguidores do Imperador", partidários do Rei, portanto apelidados pejorativamente "reais". Aí está a origem (mèlek) da palavra "Melquita" (cristãos seguidores do rei, ou "Reais"). Sendo assim, enquanto os cristãos de Antioquia que não aceitaram o Concílio de Calcedônia (monofisitas) apartaram-se da Igreja, aqueles que seguiram a Fé católica deste Concílio passaram a ser denominados Melquitas.

Mas havia ainda um terceiro grupo de cristãos pertencentes ao Patriarcado de Antioquia que, incrustado nas montanhas libanesas, também haviam mantido a Fé Católica Calcedoniana, sendo um dos principais grupos a defender e propagar essa fé no oriente: os seguidores de São Maron, por isso chamados Maronitas. Mas, antes de mais nada, quem foi São Maron?

SÃO MARON



A primeira fonte de informação que diz respeito a São Maron é uma carta que São João Crisóstomo mandou em 405, de seu exílio na Armênia, a Maron sacerdote eremita, na qual pede sua oração e se lamenta porque não pode visitá-lo pessoalmente. Esta carta é um testemunho autêntico de um contemporânea que conheceu pessoalmente São Maron e apreciou muito a sua piedade.

A segunda fonte de informação apareceu uns vinte anos mais tarde. É a famosa obra obra "História Religiosa" do Bispo, historiador e teólogo Theodoreto de Cyr (Quroch) que deu maiores informações sobre a vida do eremita São Maron e de sua influência espiritual sobre seus discípulos e sobre o povo na região norte da Síria. Segundo o Bispo de Cyr (393-452), na metade do século IV e nos princípios do século V, sobre uma montanha situada na região da Apaméia, vivia um santo anacoreta chamado Maron. Retirou-se em aquela montanha, perto de um templo pagão que ele próprio convertera em igreja. Dedicava-se à oração e à penitência.


Theodoreto disse também que São Maron, de origem Antioquena, foi dotado de muita sabedoria, o que fez dele grande diretor de almas. A austeridade de sua vida e o dom dos milagres do qual foi favorecido fizeram dele uma das grandes celebridades da região naquela época.

"Deus sendo rico e generoso para com os seus santos o gratificou com o dom de curar doenças. Sua fama espalhou-se em toda a região. As multidões ocorriam a ele... com efeito, a febre parava sob o rocio de sua bênção, os demônios fugiam, os enfermos recuperavam a saúde pela virtude de um único remédio: a oração do santo.  Porque os médicos prescrevem um remédio para cada doença, mas a prece dos amigos de Deus mostra-se como o remédio que cura todas as doenças."

O mesmo historiador chama São Maron: "O Grande, o Sublime". Por suas orações e pregações ele convertera a muitas pessoas da cidade de Cyr (Curoch) e de toda a região norte da Síria à Fé Católica e se tornou um grande exemplo a ser seguido. Foi considerado um dos fundadores e modelos da vida monástica no oriente. Numeroso foram os discípulos, homens e mulheres, que seguindo o exemplo deste eremita e querendo imitá-lo, transformaram as cavernas, grutas e morros em ermidas. Todos esperavam a visita do santo para escutaram seus sermões e receber dele as orientações necessárias para a vida ascética e mística.

O famoso historiador termina a biografia de São Maron falando de sua morte que ocorreu perto de 410, depois de breve doença mostrando no mesmo momento a fraqueza da natureza humana e a sua força espiritual. O desejo de conseguir os seus restos mortais levou a uma forte disputa entre os habitantes das cidades vizinhas. Ao fim e ao cabo, os habitantes da maior cidade conseguiram levar suas relíquias. Sobre seu túmulo, mais tarde construíram uma grande igreja. Sua festa litúrgica celbra-se, desde muitos séculos, no dia 9 de fevereiro.

DISCÍPULOS NOS MOSTEIROS DE SÃO MARON

São Maron e seus discípulos

São Maron morreu perto de 410, mas sua escola de ascetismo muito prosperou. Seus discípulos construíram vários mosteiros e se espalharam por toda a Síria, alguns deles chegando à Montanha Libanesa onde converteram à Fé Católica os habitantes que ainda eram pagãos (neste período os habitantes do litoral libanês e uma pequena parte da montanha já a haviam recebido no primeiro e segundo século da era cristã). O que facilitou a evangelização foi notadamente a língua siríaca que era comum aos monges de São Maron e aos habitantes da Montanha  Libanesa.

Vários discípulos de São Maron, com Theodoreto de Cyr,  foram, no Oriente, os principais defensores do Concílio de Calcedônia (451). O imperador Marciano, muito satisfeito pelo empenho e dedicação dos discípulos de São Maron em consolidar e propagar o dogma católico declarado no Concílio de Calcedônia, mandou renovar o grande mosteiro pertencente aos monges discípulos deste santo, conhecido sob o nome de Mosteiro de São Maron, porque nele foram depositados os restos mortais do santo eremita. Foi considerado como o berço da Igreja Maronita.

Desde então, todos aqueles que seguiram os ensinamentos de São Maron e caminharam segundo os conselhos de seus monges, abraçando a doutrina do Concílio de Calcedônia, foram chamados Maronitas, nome que há mais de quinze séculos lhes é um glorioso título, porque este vocábulo foi sempre sinônimo de Católico. Esses discípulos de São Maron organizaram o núcleo principal da Nação Maronita que será baluarte da luta em favor da fé e em benefício do triunfo da verdade sobre a mentira e da liberdade contra a opressão.

Os 350 mártires monges Maronitas

No ano 517, os cristãos monofisitas, chamados Jacobitas, que não aceitaram o dogma definido no Concílio Ecumênico de Calcedônia. Em uma verdadeira emboscada, assassinaram cerca de 350 monges Maronitas, conhecidos como mártires da casa de Maron. O Papa Hermes II mandou uma carta de consolação aos principais membros da Comunidade, lembrando que estes mártires, desde o início, selaram a Fé Católica com o próprio sangue.

INSTITUIÇÃO DO PATRIARCADO MARONITA

A instituição do Patriarcado Maronita aconteceu no final do século VII/começo do século VIII,  entre o ano 685 e 707. Não existe ainda um  consenso entre os historiadores, principalmente pelo fato de que a importante biblioteca do Mosteiro de São Maron foi queimada pelos Árabes no século X.

Nos primeiros séculos do Cristianismo, uma grande parte dos Cristãos de Antioquia era de língua grega. Mas quando os habitantes das aldeias rurais, falando exclusivamente o aramaico, converteram-se ao Cristianismo, a partir do século V, graças à inciativa dos monges Maronitas, a balança das forças na Igreja da Síria inclinou-se para o lado destes e de todos os cristãos arameus. Após morte do Patriarca Antioqueno Anastácio II (598-610) a sede de Antioquia ficou sem titular até o ano 645. Os acontecimentos político-religiosos se sucederam com muita velocidade, começando pela invasão árabe no ano 636, que cortou as vias de comunicação entre Antioquia e Bizâncio, por um lado, e Antioquia e Roma, por outro. O imperador Bizantino, aproveitando desta situação confusa, passou a nomear, a partir de 645, Patriarcas para a sede de Antioquia. Estes, no entanto, atuavam mais como representantes eclesiásticos: viviam no Palácio imperial, em Constantinopla,  bem longe do povo Antioqueno e sem a aprovação do Papa. Assim, todo Patriarca  Antioqueno escolhido pelo Imperador bizantino era só Patriarca nominal, não exercendo,  nem podendo exercer, suas funções e obrigações de autêntico pastor de sua Igreja.

YUHANNA MARON, PRIMEIRO PATRIARCA MARONITA

São Yuhanna Maron, primeiro Patriarca Maronita

Por razão desta situação confusa e humilhante para a igreja de Antioquia, os fiéis ao Concílio de Calcedônia, portanto católicos, defensores da Fé  ortodoxa, não pararam diante de uma lei, não pediram o conselho de ninguém, não aceitaram nenhuma nomeação de estranhos. Reuniram-se e decidiram eleger um patriarca que vivesse no meio do povo, que conhecesse a realidade do povo. Para essa finalidade, atendendo a esses pré-requisitos, foi eleito e entronizado o Bispo de Batroun, Yuhanna (João) Maron, como primeiro Patriarca Maronita de Antioquia. Segundo seus biógrafos, antigos e moderno, o santo Bispo Yuhanna Maron, nascido em Sarum (cidade de Antioquia) fez seus estudos no mosteiro de São Maron na Síria central e ali fora ordenado. O legado do Papa na Terra Santa o nomeou Bispo de Batroun (norte do Líbano) em 675 ou 676. Em 686 (provavelmente) foi o ano em que foi eleito Primeiro Patriarca Maronita de Antioquia pelos monges siríacos do Patriarcado de Antioquia com o apoio do povo.

Desde a sua entronização teve que enfrentar dois obstáculos de grande importância: O primeiro veio da parte do imperador Justiniano II que recusou reconhecê-lo como Patriarca. O segundo  obstáculo consistiu no confronto com o império árabe Omyade, cuja capital era Damasco.

Depois de sua eleição, o primeiro Patriarca Maronita teve uma passagem rápida em Antioquia, na Igreja do mártir São Bábilas. Perseguido pelo Imperador Justiniano II, deixou Antioquia para dirigir-se ao Mosteiro de São Maron, na província de Apaméia. Perseguido pelo exército bizantino, teve que se dirigir ao Líbano e estabelecer sua residência provisória em Kfarhai, região de sua antiga diocese (Batroun) onde guardou como relíquia de grande valor o crânio de São Maron.

Além disso, os árabes não queriam admitir a presença de um patriarca no Líbano dando apoio e acréscimo de força aos exércitos Maradat, inimigos dos árabes. Desde então passaram a recomeçar os combates entre árabes e Maradat no início do Patriarcado de Yuhanna Maron. Este, que era conhecido por sua sabedoria e santidade, por reunir qualidades de Pastor religioso e chefe político, unindo também o povo maronita em uma verdadeira nação cujo pilar era a Fé Católica, quando morreu, foi alçado à honra dos altares. É celebrado em 2 de março de cada ano.

Assim nasceu o maronismo, um ato de contestação, de liberdade, uma iniciativa única em seu gênero na Igreja. Ao instituir o Patriarcado autônomo, sem pedir autorização do Califa Omíada e do Imperador Bizantino, segundo a mentalidade da época, os Maronitas cometiam um ato de rebeldia e audácia incrível. Além disso, mais tarde não aceitaram solicitar a investidura (Firman) exigida pelos governadores muçulmanos para todos os Patriarcas e bispos. Os discípulos de São Maron têm sustentado essa negativa desde a época dos Califas Omíadas até o ano 1918, data do fim da época otomana no Líbano. Deste ato de "ilegalidade" dos Maronitas que já dura doze séculos, disse o Papa Bento XIV:

"Perto do fim do século VII enquanto a heresia desolava o Patriarcado de Antioquia, os Maronitas a fim de Se colocarem ao abrigo desse contágio, resolveram escolher um Patriarca cuja eleição foi confirmada pelos Pontífices Romanos".

SEDES DOS PATRIARCAS MARONITAS

Convento de Nossa Senhora de Bkerke, Sede do Patriarcado Maronita de Antioquia 

Os Patriarcas Maronitas, apesar de serem Patriarcas de Antioquia, não tiveram a sua sede nesta cidade por causa das guerras e perseguições. No século X, depois da destruição do mosteiro de São Maron pelos árabes, a sede patriarcal foi transferida definitivamente para o Líbano no ano 939, por João Maron II. A maioria absoluta do povo Maronita já vivia nas montanhas libanesas.

Este povo foi formado por três grupos diferentes: os descendentes dos primeiros cristãos que viviam no litoral libanês, convertidos pela pregação dos Apóstolos e de seus discípulos nos séculos primeiro e segundo do Cristianismo; os libaneses arameus da Montanha Libanesa, convertidos do paganismo nos séculos V e VI, em virtude da pregação dos monges de São Maron; e finalmente o terceiro grupo dos cristãos que emigraram, notadamente da Síria, perseguidos por anti-calcedonianos e por muçulmanos.

As principais sedes patriarcais Maronitas no Líbano são quatro, e todas dedicadas à Virgem Santíssima:

1 - Convento de Nossa Senhora de Yanouh, entre Kartaba e Akoura, região de Biblos,  onde residiram 23 Patriarcas. O mais conhecido destes foi Jeremias Alamchiti.

2 - Convento de Nossa Senhora de Mayfouk, foi sede de 10 Patriarcas. Os mais importantes entre eles foram o mártir Gabriel de Hjoula e Yuhanna Eljajy II. Este, depois de morar alguns anos neste mosteiro, transferiu a sede patriarcal, em 1440, para Qannubin.

Sua Beatitude Cardeal Bechara Boutros Rai
Patriarca Maronita de Antioquia
3 - Convento Nossa Senhora de Qannubin, num profundo e inacessível vale onde residiram 25 Patriarcas. O mais famoso de todos eles é o Patriarca Estefan Douaihy.

4 - Convento Nossa Senhora de Bkerke, a partir de 1823, foi a sede de 9 Patriarcas: Yussef Hebaich, Yussef Elkhasen, Boulos Massad, Yuhanna Eljaji, Elias Elhoyek, Antonios Arida, Boulos Meouchy, Antonios Koraich, Nasrallah Sfeir e Bechara Raî, o atual Patriarca.

Como a ideia religiosa tem presidido à constituição do povo maronita, de uma maneira natural o Patriarca chegou a ser o seu centro de união e de adesão, ao mesmo tempo político e religioso. Este estatuto patriarcal tem sido reforçado por razão das perseguições que os Maronitas suportaram, notadamente na época dos Mamelucos e Otomanos. Segundo Frei Bernard, o Patriarca Maronita é a primeira autoridade moral do país e tem um papel de primeiro plano.

RELAÇÃO DOS MARONITAS COM ROMA

Sua Santidade o Papa Francisco e Sua Beatitude o Patriarca Bechara Boutros Rai

Durante quatro séculos, o isolamento pelo qual os Maronitas foram obrigados a passar fez com que desconhecessem o que se passava em Roma, assim como Roma parecia ignorar o que se passava com eles. Mas, com a chegada dos Cruzados ao Líbano, em 1099, os Maronitas conseguiram retomar o caminho que lhes haviam interditado. As relações que os Maronitas mantiveram com Roma e a Cristandade ocidental fez com que se levantassem fortes perseguições por parte dos governadores Mamelucos e Otomanos, que as usavam como pretexto para persegui-los.

Em consequência dessa tirania, assim como das dificuldades de comunicação com a Europa, não foi possível aos Patriarcas conseguirem com facilidade o Palium, símbolo de reconhecimento pelo Papa da autoridade do Patriarca sobre o povo Maronita. Roma fazia o que podia,  encarregando os Franciscanos da Terra Santa de velar sobre as necessidades religiosas e culturais da Igreja Maronita.

Quando das cruzadas, os Cruzados ficaram profundamente impressionados com a receptividade, a piedade e o carinho de seus irmãos católicos orientais Maronitas à Sé de Roma e ao sucessor de Pedro, o santo  padre o Papa. Os cruzados, de fato, contaram com a preciosa ajuda dos grandes guerreiros Maradat, que eram Maronitas, em diversas batalhas. São Luiz, Rei da França, escreveu uma carta ao Patriarca e ao povo Maronita onde dizia que estavam sob sua proteção da mesma forma que os próprios franceses.

A época de Fakreddin II (1598-1635) pode ser considerada como a idade de ouro das relações da Igreja Maronita com Roma. O Emir recorreu ao Patriarca Yuhanna Maklouf pedindo a sua intervenção perante o Papa para poder garantir a independência do Líbano. O Patriarca atendeu a seu pedido, encarregando grandes escritores formados no Colégio Maronita de Roma, de trabalhar como embaixadores do Emir em Roma, Toscana e Espanha. Entre eles estavam o Bispo Jorge Humaira (futuro Patriarca) e o professor Ibrahim Alhaqlany.

A fundação do Colégio Maronita em Roma em 1584 consagrou de vez a abertura da Igreja Siríaca Maronita de Antioquia à Igreja Latina de Roma.

Além disso, os Papas prestaram um valioso testemunho que enche de orgulho e de satisfação o povo Maronita. Assim, Leão X escrevia, em 1515, ao Patriarca Maronita Simaan Alhadacy:

"Convém agradecer à Divina clemência porque, entre as nações orientais, o Altíssimo queria que os Maronitas fossem como rosas entre espinhos".

Clemente XII, em 1735, qualifica a nação Maronita de:

"Rosa entre os espinhos, rocha muito sólida contra a qual se rompem as fúrias da infidelidade e das heresias".

São Pio X disse:

"Amamos todos os cristãos do oriente, porém os Maronitas ocupam um lugar especial em nosso coração, porque foram em todo o tempo a alegria da Igreja e o consolo do Papado... A fé católica está arraigada no coração dos Maronitas como os antigos cedros estão enraizados por suas poderosas raízes nas altas montanhas de sua pátria".

Não é necessário estender-se mais sobre este sublime apreço dos Papas aos Maronitas. Nos tempos recentes, três foram os Papas que visitaram o Líbano e o povo Maronita: primeiro foi o Papa Paulo VI, que o fez em 1964, seguido por João Paulo II em 1997 e, por fim, o Papa Bento XVI, que o fez em 2012.

Papa Bento XVI diante das escadarias de Nossa Senhora do Líbano (2012)

A LITURGIA MARONITA

A liturgia Maronita pertence, por sua origem, ao grupo de liturgias siríacas antioquenas, portanto, ao Rito (Siríaco) Antioqueno. No século IV, a língua literária do povo de Antioquia era o grego, mas o siríaco foi a língua vernácula da população rural. São João Crisóstomo (345-407), disse que em seu tempo, o povo das aldeia vizinhas de Antioquia, que vinham a esta capital para as grandes festas, participavam ao ajuntamento da celebração eucarística, mas não entendiam a homilia feita em grego. Theodoreto, bispo de Cyr e originário de Antioquia dizia também que toda a região que ele conhecia perfeitamente, entre Antioquia e Alepo, tinham o siríaco como língua própria. Por isso, o siríaco na liturgia substituirá, pouco a pouco, a língua grega, assim como mais tarde o árabe acabará substituindo em grande parte a língua siríaca nos países de língua árabe.


Esta liturgia, embora haja acumulado diversas influências litúrgicas (inclusive do Rito Latino) ao longo dos séculos, ainda continua a representar a antiga liturgia antioquena dos primeiros séculos, que por sua vez é fruto da Divina Liturgia de São Tiago Apóstolo, primeiro Bispo de Jerusalém.

Os monges de São Maron conservaram essa liturgia em sua forma primitiva e se opuseram a que fosse bizantinizada, como ocorreu com os demais membros católicos do Patriarcado de Antioquia "não Maronitas" que aos poucos substituíram o Rito Siríaco Antioqueno pelo Rito Bizantino (no caso, os Greco-Melquitas). Deste modo, a Liturgia Maronita, apesar das modificações introduzidas, conserva ainda intacto o selo de antiguidade do Rito Antioqueno.

A liturgia siríaca reproduz, em seu desenvolvimento e na vida das comunidades, um modo intermediário entre a Glória e a Paixão. Uma boa parte das orações é fruto da pena de Santo Éfrem denominado "Harpa do Espírito Santo", do grande mestre Jacob de Sarug e de muitos outros padres da Igreja de Antioquia que compuseram, na calma da meditação, estas belas orações.

A língua litúrgica, como já fora dito, é o siríaco ou siro-aramaico, isto é, o mesmo idioma que falou Nosso Senhor Jesus Cristo e que lhe serviu na Última Ceia para a instituição da Eucaristia. A Liturgia Maronita conserva, pois, a nota sublime destas palavras da Consagração.

Para conhecer mais o Rito da Igreja Maronita, isto é, o Rito Antioqueno, acesse ao nosso artigo sobre ele clicando AQUI.

OS SANTOS MARONITAS

Santa Rafka Elrayes, São Charbel Maklouf, SãoNaamtalla Kassab e o Beato Yaaqub Haddad

Da profunda e difícil vida e da espiritualidade da Igreja Maronita, sem jamais esquecer os inumeráveis fieis que deram suas próprias vidas pela Fé, existe um elenco de santos e beatos Maronitas, sinal da participação da Igreja particular (Maronita) na Igreja Universal (Católica). Além do grande São Maron, padroeiro da Igreja Maronita e de onde provém o nome desta Igreja, e de São Yuhanna Maron, de quem já falamos anteriormente porque fazem parte integrante da história da formação da Igreja Maronita, falaremos também de outros santos que foram beatificados e canonizados segundo as normas modernas ou recentes exigidas para a canonização.

Dentre eles podemos mencionar Santa Rafka Elrayes, nascida em 1832 em Himlaya, próximo à Beirute, numa família Maronita. Após perder a mãe ainda criança e ter experimentado um grande vazio durante sua adolescência, sentiu-se atraída por Deus, abraçando a vida religiosa aos 21 anos. No ano de 1860 Rafka presenciou as sangrentas matanças dos cristãos na Montanha Libanesa, o que foi para ela uma cruel experiência. Um domingo do Rosário (1º domingo do mês) de 1885, Rafka elevou a Deus suas orações desejando que Ele lhe permitisse assemelhar-se a Cristo em seus sofrimentos no Calvário. Pouco tempo depois, passou por uma cirurgia no olho direito que saiu mal, ficando cega e tendo o outro olho infeccionado. Após perder a visão dos dois olhos, passou por outros problemas de saúde, ficando praticamente acamada, tendo que ser transportada à Igreja carregada, envolta em lençóis. A tudo isso dava graças a Deus por permitir-lhe passar por sofrimentos que lhe fizessem semelhante a Nosso Senhor. Em 23 de março de 1914 entregou sua alma a Deus dizendo: "Jesus, Maria e José, lhes dou meu coração e meu espírito, tomem posse de minha alma". Foi canonizada em 10 de agosto de 2001.

Diversos outros exemplos de santo heroísmo e sublime santidade há no seio da Igreja Maronita, tais como os 350 mártires, monges Maronitas massacrados por aqueles que não aceitavam o Concílio de Calcedônia; Os mártires Francisco, Abdulmoti e Rafael, pertencente à família Maronita Massabki e conhecidos como Mártires de Damasco por terem sido aí martirizados no dia 10 de julho de 1860 juntamente com 8 franciscanos;  Também o grande Monge Maronita São Naamtalla Kassab, diretor geral dos seminaristas, professor de Teologia Moral e assistente geral da Ordem, conhecido por sua santidade, faleceu em 14 de dezembro 1858 e foi canonizado em 2004; Há também o Beato Maronita que tornou-se frade menor capuchinho e fundou a Congregação das Irmãs Franciscanas da Cruz no Líbano, Abuna Yaaqub Haddad

Por fim, não há como não mencionar São Charbel Maklouf, santo de vida tão extraordinária que passou a ser conhecido e venerado não só dentre os fiéis da Igreja Maronita como também dentre os fiéis da Igreja Latina. Melhor do que simplesmente escrever algumas palavras sobre São Charbel, deixarei aqui dois links: o primeiro (AQUI) trata de uma apresentação da vida de São Charbel em Vídeo feita pelo Padre Paulo Ricardo; o segundo (AQUI) é o link de um ótimo filme da Vida de São Charbel; Todos estes são verdadeiros exemplos de como o Jardim Maronita produz belíssimas flores de santidade.

A IGREJA MARONITA NO BRASIL

Os Maronitas passaram a se fazer presentes no Brasil juntamente com as ondas migratórias dos primeiros libaneses que aqui chegaram, já em meados de 1865. A primeira Paróquia Maronita - Paróquia Nossa Senhora do Líbano - no entanto, foi criada apenas por volta de 1890, com a vinda de seu primeiro pároco, o Padre Yacoub Saliba. Padre Yacoub fundou, no dia de São Maron ( dia 9 de fevereiro de 1897) a Sociedade Maronita de Beneficência.

Dom Edgard Madi, atual Arcebispo Maronita
do Brasil
Em 1954 chegaram ao Brasil três padres provenientes do Líbano, a pedido da Santa Sé, três Padres da Ordem Libanesa Maronita: Padres Basílio Azar, Francis Nasr e Bernardo Azzi, que ficaram responsáveis pela paróquia até 1968. Durante esse tempo foi construída a atual Igreja de Nossa Senhora do Líbano, no bairro da Liberdade - São Paulo. Ao chegar ao Brasil, Dom Francis Zayek escolheu essa Igreja para ser sua Catedral.

Missões Maronitas foram sendo realizadas Brasil afora e Paróquias e Comunidades foram sendo fundadas. Em 1997 o Brasil teve a graça de receber a visita de Sua Beatitude Cardeal Nasrallah Sfeir, Patriarca Maronita de Antioquia. Sua beatitude visitou a comunidade Maronita do Brasil atendendo ao convite da Sociedade Maronita de Beneficência, que na ocasião acabara de completar seu primeiro centenário de fundação.

No dia 26 de Novembro de de 2006 foi ordenado o Padre Edgard Madi como Arcebispo Maronita para todo o Brasil. Dom Edgard Madi tomou posse de sua Catedral no dia 10 de dezembro de 2006.

Catedral Maronita de Nossa Senhora do Líbano, São Paulo, Brasil

Atualmente, além da Catedral Maronita Nossa Senhora do Líbano, localizada na Rua Tamandaré, 355 - Liberdade - São Paulo - SP, há Paróquias e comunidades Maronitas em outros municípios de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Distrito Federal e Rio Grande do Sul.  

Além do Bispo (Dom Madi), no Brasil há por volta de 20 padres maronitas, além de diáconos e irmãs Maronitas.

Fontes:
- A Igreja Maronita e o Líbano  - Pe. Emille Eddé
- Site da Eparquia Maronita Nossa Senhora do Líbano
Adaptações, revisão e acréscimos:
- Oriente Católico