segunda-feira, 20 de abril de 2020

Igrejas Católicas Orientais: 06 - A IGREJA CALDEIA CATÓLICA

Cruz Assíria-Caldeia

Igreja Caldeia Católica, em siríaco clássico (ܥܕܬܐ ܟܠܕܝܬܐ ܩܬܘܠܝܩܝܬܐ), também chamada Igreja Católica Caldaica ou mais especificamente, Patriarcado de Babilônia dos Caldeus, é uma das 23 igrejas orientais ditas "sui juris", isto é, "autônomas", em plena comunhão com a Sé Apostólica de Roma. Isto significa, portanto, que a Igreja Caldeia Católica reconhece a autoridade do Papa como sumo pontífice, pai e líder de todos os católicos do orbe.

Há, aproximadamente, um milhão de Católicos Caldeus em todo o mundo, dos quais a grande maioria (cerca de 700 mil assírios étnicos) encontra-se no norte do Iraque, sudeste da Turquia e noroeste do Irã, uma região correspondente ao que seria (aproximadamente) a antiga Assíria. Existem também assírios-caldeus no Egito, assim como muitos na diáspora ocidental (alguns países europeus, Canadá, Estados Unidos, etc.), o que foi intensificado nos últimos anos com as constantes perseguições aos cristãos, perpetradas pelo ISIS (Estado Islâmico) e outros grupos terroristas. Mas afinal, quem são os Católicos Caldeus?


ORIGEM DA IGREJA CALDEIA CATÓLICA

Brasão do Patriarcado de Babilônia dos Caldeus

Os Católicos Caldeus são os cristãos católicos orientais que devem sua origem, geograficamente, à Assíria central (nas planícies de Nínive), onde as ruínas das antigas capitais assírias de Nínive e Nimrud estão localizadas. Os caldeus são populações de origem assíria cuja maioria se converteu ao catolicismo nos séculos XVII e XVIII.

Como vimos anteriormente, a Igreja Católica é a comunhão de igrejas (comunidades cristãs) que professam a mesma Fé e que estão sujeitas aos mesmos chefes espirituais que as governam (bispos), estes por sua vez unidos entre si e à Igreja de Roma assim como a seu  bispo, o Papa. Nessa Comunhão Católica, podemos dizer que a Igreja possui duas raízes: a ocidental, também chamada latina (ou Romana) e a oriental. Dentro desta segunda, quatro são as sedes patriarcais que marcaram sua história: Jerusalém, AntioquiaAlexandria e ConstantinoplaAs 5 (cinco) sedes patriarcais formariam aquilo que denominamos "pentarquia" (conforme vimos nos artigos anteriores), encabeçada pela Igreja de Roma e o Pontífice Romano: o Papa. No entanto, além dessa distinção entre os 5 Patriarcados acima mencionados, há que se mencionar a chamada "Igreja do Oriente" que também se desenvolveu no início da era cristã. 

Para que possamos compreender melhor, portanto, a Igreja Caldeia Católica, devemos entender, primeiramente, como se desenvolveu a chamada "Igreja do Oriente", da qual ela se originaria.



FUNDAÇÃO APOSTÓLICA da "IGREJA DO ORIENTE"  




A Igreja do Oriente é considerada uma Igreja Apostólica, isto é, cuja fundação remonta a um dos Apóstolos do Senhor. Segundo a Tradição, teria sido estabelecida pelo Apóstolo São Tomé, contando também com a participação do Apóstolo São Bartolomeu e de São Tadeu de Edessa, um dos 70 discípulos de Nosso Senhor Jesus Cristo.  Além disso, o chefe dos Apóstolos e primeiro Papa, São Pedro, segundo a tradição assíria, acrescentou sua bênção à Igreja do Oriente no momento de sua visita à Sé de Babilônia, nos primeiros dias da Igreja, como o teria relatado em sua Epístola:

"A Igreja eleita que está na Babilônia saúda-vos; assim como também Marcos, meu filho". (1 Pedro, cap. 5, vers. 13).

Embora se compreenda a citação por São Pedro (Babilônia) como uma referência a Roma, também os assírios a entendiam como a Igreja presente naquela região.

A Igreja do Oriente, embora tenha se desenvolvido nos 3 primeiros séculos da Era Cristã, alcançou o reconhecimento do Estado Sasaniano no Irã apenas no século IV, com a adesão de Yazdegerd I ao trono do império Sasaniano em 399. Sob o imperador sasaniano, a Igreja do Oriente foi sendo induzida a procurar distanciar-se cada vez mais da Igreja em suas manifestações "mais a ocidente", isto é, da Igreja Latina (ou seja, Romana) e Grega (isto é, bizantina, a Igreja de Constantinopla, na época conhecida como Igreja do Império Romano do Oriente).

Em 424, os Bispos da Igreja no território do Império Sasaniano, reuniram-se em Concílio, sob a liderança do Kathólicos Dadisho (421 a 456) e determinaram que, a partir daquele momento, não encaminhariam problemas disciplinares - ou mesmo teológicos - a qualquer "poder externo", sobretudo a nenhum Bispo (Patriarca) ou Concílio da Igreja no Império Romano.  Sendo assim, as igrejas da Mesopotâmia que compunham a chamada "Igreja do Oriente" passaram a não enviar seus representantes aos diversos Concílios da Igreja que se sucederam por imposição, promoção ou participação dos representantes da "Igreja Ocidental". Consequentemente, os líderes da Igreja do Oriente não se sentiam vinculados obrigatoriamente a acatar nenhuma decisão dos que seriam considerados "Concílios Imperiais Romanos".




A controvérsia teológica que se seguiu ao Concílio de Éfeso, realizado no ano 431, tornou-se um ponto de virada na história da Igreja. O Concílio condenou como herética a cristologia de Nestório, então Patriarca de Constantinopla, cuja relutância em conceder à Virgem Maria o título de Theotokos, isto é, "portadora de Deus", ou mais exatamente, "Mãe de Deus", foi tomada como prova de que ele acreditava que duas pessoas separadas (em oposição a duas naturezas unidas) estavam presentes dentro de Cristo. Essa doutrina opunha-se às definições do Concílio de Éfeso, o que resultou na deposição de Nestório de sua Sé Patriarcal: ele foi deposto como herege, e suas doutrinas, condenadas e posteriormente conhecidas como a "heresia Nestoriana" ou "Nestorianismo". Ainda assim, alguns Bispos e clérigos (e consequentemente, comunidades de fiéis) continuaram fiéis às doutrinas de Nestório, seguindo-o.


O Concílio de Éfeso

O imperador Sasaniano, hostil aos bizantinos, viu a oportunidade de garantir a lealdade de seus súditos cristãos e ao mesmo tempo afastá-los dos "romanos" (latinos e bizantinos) apoiando o cisma nestoriano. Neste sentido, o imperador tomou medidas para consolidar a primazia do partido nestoriano dentro da Igreja do Oriente, concedendo proteção a seus membros e executando o pró-romano Khatolikós Babowai em 484. O imperador então o substituiu pelo bispo nestoriano de Nisibis, Barsauma. Mais tarde, seu sucessor como Khatólikós (Patriarca) da Igreja do Oriente, Babai (ano 497 a 503) confirmou o apoio da Igreja do Oriente ao Nestorianismo.
Padres nestorianos em procissão no Domingo de ramos no,
Pintura de parede do século VII ou VIII em uma igreja nestoriana na China

Após essa divisão com o mundo ocidental e adoção do Nestorianismo (o que, para nós católicos, os colocava como não apenas cismáticos, mas também heréticos), a Igreja do Oriente expandiu-se rapidamente devido ao trabalho missionário durante o período medieval: entre o ano 500 e o ano 1.400, os horizontes geográficos da Igreja do Oriente se estenderam muito além de seu coração no atual norte do Iraque, oeste do Irã, nordeste da Síria e sudeste da Turquia. A Igreja passou por uma "era de ouro", mantendo poder significativo e  grande influência no mundo civilizado de então, durante esse período.
Estela Nestoriana

Comunidades assírias surgiram por toda a Ásia Central, e missionários da Assíria e da Mesopotâmia levaram a fé cristã até a China. Uma prova de primeira grandeza de seu trabalho missionário na China é a "Estela Nestoriana", uma tábua da Dinastia Tang, escrita chinesa, datada do ano 781, que documenta 150 anos de história cristã na China. 

Sua contribuição mais importante, no entanto, foi a dos chamados "cristãos de São Tomé" na costa de Malabar, na Índia. Estes cristãos, chamados "siro-malabares" (onde se inclui a Igreja Católica Siro-Malabar, que apresentaremos em um artigo próprio sobre ela) formam o maior grupo de cristãos não etnicamente assírios do mundo, com cerca de 10 milhões de seguidores (somadas todas as denominações e sua própria diáspora). Acredita-se que os Cristãos de São Tomé foram convertidos pelo próprio São Tomé Apóstolo, e por manterem a mesma origem em comum neste apóstolo - assim como o Rito - com os Assírios, estavam em comunhão com a Igreja do Oriente até o final do período Medieval.


DECLÍNIO DA IGREJA DO ORIENTE

Templo nestoriano de São Jorge, na Turquia (século XIV - XV)  

Por volta do ano 1.400, o conquistador nômade turco-mongol Timur surgiu das estepes da Eurásia para liderar campanhas militares no oeste, sul e centro da Ásia. Em tais empreitadas, chegou a conquistar grande parte do mundo muçulmano, após haver derrotado os mamelucos do Egito e da Síria, o emergente Império Otomano e o (então em declínio) sultanato de Délhi. As conquistas de Timur devastaram a maioria dos bispados assírios e destruíram a cidade de Assur, cidade com 4.000 anos de história, que era a capital cultural e religiosa da Igreja do Oriente.

Após a destruição provocada por Timur, a estrutura maciça e organizada da Igreja Nestoriana, que no seu auge se estendeu até a china, Ásia Central, Mongólia e Índia, foi amplamente reduzida à sua região de origem, com exceção dos "Cristãos de São Tomé, da Índia.


O CISMA DE 1552

Como vimos, até a destruição perpetrada por Timur por volta de 1.400, a sede da Igreja do Oriente estava em Assur, mas após tais acontecimentos, a sede do Patriarcado passou a localizar-se na antiga cidade de Alqosh. Ainda no final do século XV, o Patriarca da Igreja do Oriente Shimun IV Basidi (1.437 - 1.493) decidiu tornar o ofício de Patriarca "hereditário", mantendo-o no seio de sua própria família, a chamada "linha Eliya".

Tal ação foi possível graças à antiga lei canônica da Igreja do Oriente, que decretava que somente os bispos metropolitanos poderiam confirmar um patriarca. Por meio desta lei, Shimun IV passou a nomear apenas seus familiares como bispos metropolitanos, o que foi repetido por seu sucessor: desta forma, apenas dentre seus irmãos ou sobrinhos poderia ser escolhido seu sucessor como patriarca. Tal situação foi gerando descontentamentos na Igreja, até a eleição do Patriarca Shemon VII Ishoyahb.

O Patriarca Shemon VII Ishoyahb, consagrado entre o final de 1538 e início de 1539, era altamente impopular devido a suas atividades ilícitas e vida devassa, vendendo propriedades da Igreja e permitindo o uso de concubinas. Além disso, ele consagrou seus próprios sobrinhos, alguns aos 12, 13 ou 15 anos, como bispos metropolitanos. Essas ações levaram a amplos protestos, causando mais agitação e instabilidade na Igreja.

Foi então que, em 1552, um grupo de bispos assírios das regiões do norte de Amid e Salmas elegeu um padre, Mar Yohannan Soulaqa, como Patriarca "rival" ao sistema corrupto então estabelecido no Patriarcado da Igreja do Oriente. Yohannan Soulaqa, juntamente com 70 delegados da Igreja do Oriente, viajou para Jerusalém para encontrar-se com o Custódio da Terra Santa. O grupo conseguiu convencer os frades franciscanos de que eles professavam a Fé Católica, tal qual definida nos últimos Concílios Ecumênicos e professada pela Santa Sé Apostólica de Roma, de forma integral. Além disso, manifestaram o interesse de que o Papa os confirmasse como Igreja Assíria plenamente católica, tendo Soulaqa como o Patriarca dessa Igreja. Os frades franciscanos da Terra Santa, por sua vez, deram a eles uma carta de apresentação para ser levada ao Papa Júlio III quando chegassem a Roma.

Em posse desse documento, Yohannan Soulaqa viajou a Roma juntamente com sua comitiva, tendo a assistência do Padre sírio-europeu Andreas Masius como tradutor na corte do Papa. Em 20 de fevereiro de 1553, Yohannan Soulaqa fez uma profissão de Fé Católica diante do Papa Júlio III. Em 09 de abril do mesmo ano, foi sagrado Bispo na Basílica de São Pedro, pelas mãos do Cardeal espanhol Juan Álvarez Alva de Toledo (algumas fontes dizem que o próprio Papa teria sido um dos co-sagrantes).

A nomeação de Yohannan Soulaqa como Patriarca da Igreja do Oriente em plena comunhão católica foi ratificada pela bula papal "Divina Disponente Clementia". No consistório papal realizado em 28 de abril de 1553, Sulaqa recebeu o pálio, isto é, o sinal de sua autoridade Patriarcal e comunhão com a Sé Romana, das mãos do Papa. Adotou o nome cristão aramaico tradicionalmente usado pelos Patriarcas da Igreja do Oriente, tornando-se a partir de então Mar Shimun VIII Yohannan Soulaqa, Patriarca dos Assírios Orientais. Para diferenciar a Igreja que agora estava em plena comunhão católica da parcela da Igreja do Oriente que não aderiu ao Patriarca Soulaqa e permanecia afastada da Igreja de Roma (linha Eliya), a "nova" Igreja sob o Patriarca Shimun VIII Sulaqa passou a ser chamada de Igreja da Assíria e Mosul. A Crônica dos Carmelitas afirma que o título, a princípio de Patriarca dos Assírios Orientais, foi alterado em 19 de abril de 1553, para Patriarca dos Caldeus. Isso se referia ao Antigo Testamento, que dá origem ao local de nascimento de Abraão como "Ur dos Caldeus" (tradicionalmente Edessa), muito antes de os caldeus entrarem na Mesopotâmia, e não para significar alguma ligação étinica/geográfica com os extintos caldeus.


Mar Shimun VIII Yohannan Soulaqa

Mar Shimun VIII Yohannan Soulaqa regressou por terra até Constantinopla, e de lá para a cidade de Amid (atualmente Diyarbakir), no norte, chegando aí em 12 de novembro de 1553, onde estabeleceu sua Sé. Ele foi acompanhado pelo Bispo Ambrose Buttigeg, OP (+ 1558), um poderoso clérigo maltês, nomeado especialmente como "Núncio para Mosul".

Em janeiro de 1555, portanto pouco mais de um ano após estabelecer-se como Patriarca da Igreja do Oriente em comunhão com Roma, ele foi convocado pelo Pashá local (espécie de governador dentro do Império Otomano), que havia sido instigado pelos partidários de Shimun VII (do Patriarcado de Alqosh - linha Eliya - da Igreja do Oriente). Após ser preso, ele foi torturado e executado, sendo portanto um mártir da Igreja Católica. Mar Shimun VIII Yohannan Soulaka havia sagrado Bispos, dentre os quais cinco Metropolitanos, constituindo assim a base de uma nova estrutura eclesiástica em oposição à antiga do Patriarcado de Alqosh. Essa linha sucessória passou a ser conhecida como "linha Shimun".

Após a morte do Patriarca Soulaqa, o contato com Roma foi -  infelizmente - diminuindo. O último Patriarca a solicitar (e obter) formalmente seu reconhecimento pelo Papa foi Mar Shimun IX Dinkha, falecido em 1600. A partir de então, foi reintroduzida a prática da hereditariedade para a sucessão dos Patriarcas, algo inaceitável para Roma uma vez que essa teria sido justamente uma das razões do rompimento de Sulaqa com a antiga hierarquia da Igreja do Oriente (linha Eliya) e do nascimento da chamada Igreja da Assíria e  Mosul.

Em 1670, o Patriarca Shimun XIII Dinkha foi indagado pelo Papa acerca da Cristologia professada em sua Igreja. Havia, neste momento, um forte movimento de exaltação da "Fé tradicional" da Igreja do Oriente, que como vimos no início, pendia para o Nestorianismo. A resposta do Patriarca, fortemente marcada por uma cristologia nestoriana, não foi aceita pelo Papa. Foi então que, em 1692, o Patriarca Shimun XIII Dinkha rompeu formalmente a comunhão com Roma. Ainda assim, manteve sua Igreja (linha Shimun) chamada agora de Igreja Assíria do Oriente, independente do Patriarcado de Alqosh (linha Eliya, antiga Igreja do Oriente).



1672: A LINHA "JOSEFITA" INTERMEDIÁRIA

Enquanto o Patriarcado Caldeu da chamada Igreja da Assíria e Mosul ("linha Shimun") ainda encontrava-se em meio a turbulências, fazendo com que a Santa Sé de Roma não tivesse certeza sobre sua comunhão católica, um segundo "Patriarcado Caldeu" formava-se, quando, em 1672, Mar José I, Arcebispo de Amid, entrou em comunhão com Roma, separando-se da antiga Igreja do Oriente (Patriarcado de Alqosh). Em 1681 a Santa Sé concedeu a ele o título de "Patriarca dos Caldeus privados de seu Patriarca". Todos os sucessores de José I adotaram o nome José.

A sobrevivência e crescimento desse Patriarcado foi difícil, tanto pelos problemas com os chamados assírios "tradicionalistas" (nestorianos) quanto financeiramente, por conta da chamada "jizya", espécie de imposto cobrado pelo governo otomano (muçulmano) aos súditos cristãos. Ainda assim, conseguiu com que sua influência ultrapassasse as fronteiras de Amide e Mardin, alcançando Mosul e as planícies de Nínive.

Neste momento, portanto, pode-se dizer que a antiga Igreja do Oriente, havia se fragmentado em 3 ramos principais: O maior e mais "antigo" (no sentido de que os outros ramos dele se separaram), "linha Eliya" - Patriarcado de Alqosh, cuja referência  ainda se mantivera como Igreja do Oriente, também popularmente conhecida como "Igreja Nestoriana"; O ramo da chamada "linha Shimun", originalmente surgido da comunhão com Roma como Igreja da Assíria e Mosul e popularizado como Patriarcado dos Caldeus, mas que agora rompia a comunhão com Roma, constituindo-se novamente como um Patriarcado Nestoriano e popularizando-se como "linha Shimun" - Igreja Assíria do Oriente; Por fim, o "ramo intermediário" da "linha Josefita" em comunhão com Roma.

Nos séculos XVII e  XVIII, não se pode facilmente vislumbrar com clareza a posição e o lugar da Igreja do Oriente na comunhão católica:  isso porque, enquanto o Patriarcado da chamada "linha Shimun" se distanciava cada vez mais da comunhão com Roma, até separar-se formalmente em 1692, como vimos anteriormente, outra parcela da Igreja do Oriente - além do "Patriarcado de linha josefita" - vinha se aproximando da comunhão católica, intercalando períodos de não-comunhão, comunhão parcial ou mesmo plena: a "linha Eliya", Patriarcado de Alqosh, a antiga Igreja do Oriente.



1830: A ATUAL IGREJA CALDEIA CATÓLICA - PATRIARCADO DE BABILÔNIA DOS CALDEUS

Como vimos, o mais antigo herdeiro da antiga Igreja do Oriente, o Patriarcado de Alqosh (linha Eliya), ficava no Mosteiro de Alqosh, em Rabban Hormizd. Durante o período de surgimento e consolidação do Patriarcado Caldeu de linha "josefita", assim como de afastamento da comunhão com Roma por parte do Patriarcado de linha "shimun", eles entraram em plena comunhão católica por um curto período: de 1610 a 1617. Mais de um século depois, em 1771, o Patriarca Eliya XII Denkha assinou uma confissão de Fé Católica, embora não tenha resultado em união formal.
Yohannan VIII Hormizd

Com a morte de Eliya XII Denkha em 1778, seu sobrinho o  sucedeu tornando-se o Patriarca Eliya XIII Ishoñahb. Uma parte da Igreja, insatisfeita com sua eleição, elegeu 2 anos depois - em 1780 - a Yohannan Hormizd, também sobrinho do Patriarca Eliya XII Denkha (e primo de Eliya XIII Ishoñahb) como novo Patriarca.

Após sua eleição, Yohannan Hormizd foi cada vez mais se aproximando da Fé Católica. Chegou, por fim, a fazer uma profissão de fé católica e então, em 1783, foi reconhecido por Roma como Administrador Patriarcal e Arcebispo de Mosul. Tal situação perdurou até a morte de Eliya XIII Ishoñahb em 1804, quando então toda a Igreja do Patriarcado de Alqosh passou a reconhecê-lo como Patriarca, sob o nome de Mar Yohannan VIII Hormizd. O antigo Patriarcado sede da Igreja do Oriente passava assim também à comunhão com a Sé Apostólica de Roma.

Das três linhas da antiga Igreja nestoriana ou Igreja do Oriente, duas delas tornaram-se católicas: a maior e mais antiga (linha Eliya, de Alqosh) e a da chamada linha "josefita" que, no momento era governada pelo Patriarca José V Augustine Hindi. Somente a linha "Shimun" prosseguiu seu caminho separadamente, mantendo-se "nestoriana" e então destacando-se sob o nome Igreja Assíria do Oriente.

Os dois Patriarcados Católicos, isto é, em comunhão com Roma, passaram a coexistir sem que Roma quisesse interferir definindo qual seria o detentor do título de Patriarca da Igreja do Oriente, ou mais precisamente, "Patriarca dos Caldeus". Isso prosseguiu, embora apenas por algum tempo: na prática, a partir de 1811, era José V Augustine Hindi  quem passou a governar de fato (ainda que como administrador patriarcal) as "duas linhas" da Igreja.

Com a morte de José V Augusttine Hindi, em 1827, as duas linhas  católicas procuraram manter-se juntas e iniciaram o processo de fusão. A chamada "linha josefita" não quis eleger um "sucessor dessa linha" mas sim permanecer em união católica reconhecendo a Mar Yohannan VIII Hormizd como legítimo Patriarca. Então, em 05 de julho de 1830 ele foi reconhecido oficialmente por Roma, sob o Sumo Pontífice Papa Pio VIII, como Sua Beatitude Mar Yohannan VIII Hormizd, Patriarca de Babilônia dos Caldeus. Curiosamente, a linha que havia se separado da Igreja do Oriente buscando a comunhão com Roma passara a ser a "igreja nestoriana", a separada Igreja Assíria do Oriente, ao passo que a mais antiga tornara-se católica.

A fusão dos Patriarcados de Alqosh e o da linha "josefita" dava início, definitivamente, ao Patriarcado de Babilônia dos Caldeus: a Igreja Católica Caldeia.




A EXPANSÃO E O DESASTRE (SÉCULOS XIX E XX)

Mar José VI Audo, Patriarca de Babilônia dos
Caldeus de 1847 a 1878

Os anos seguintes da Igreja Caldeia foram marcados por extrema dificuldades e violência de origem externa: em 1838, o Mosteiro de Alqosh foi atacado pelos otomanos e curdos de Soran, onde centenas de cristãos assírios-caldeus foram massacrados. Em 1843, os curdos passaram a extorquir as aldeias assírias além dos limites do possível, matando a todos que se recusassem a colaborar: mais de 10.000 cristãos assírios - não apenas caldeus (católicos) mas também nestorianos, siríacos, ortodoxos gregos, etc. - foram mortos. Os ícones do Mosteiro Rabban Hormizd foram destruídos.

Em 1846, a Igreja Caldeia foi reconhecida como um "milheto" (milit), isto é, uma comunidade distinta no império, obtendo assim sua emancipação cívica. No século XIX, o Patriarca Caldeu Mar José VI Audo tornou-se uma figura de grande influência, além de protagonizar um episódio de certo "mau-estar" quando tentou estender a jurisdição da Igreja Caldeia Católica às comunidades da Índia (Igreja Católica Siro-Malabar), gerando certo desconforto com o Papa Pio IX. Ainda assim, este período foi de grande expansão para a Igreja Caldeia Católica.


Faisal I do Iraque, com Patriarca Católico de Babilônia dos Caldeus Mar Yousef VI Emmanuel II Thomas (Patriarca de 1900 a 1947) e o Bispos Caldeus

Já no século XX, diversos eventos sangrentos se abateram sobre a Igreja Caldeia, sobretudo a Primeira Guerra Mundial e o subsequente Genocídio Assírio, onde mais de 300.000 assírios (não apenas caldeus) foram mortos. Muitos morreram também em decorrência da Guerra da Independência da Assíria, em resistência à Jihad contra os cristãos, declarada por Enver Pasha (1914) e mesmo em decorrência da Revolução Russa (1917). Assírios foram mortos diretamente (massacres) e mesmo onde o povo conseguia fugir de seus territórios invadidos pelo Império Otomano e seus aliados árabes e curdos, acabavam por morrer de fome e frio. Metropolitanos Caldeus como Addai Scher, de Siirt, e Philip Abraham, de Gazarta, foram mortos em 1915.



PERSEGUIÇÃO NO IRAQUE E NA SÍRIA

Os assírios-caldeus, assim como cristãos de outras denominações (e membros de demais minorias religiosas no Iraque) têm sofrido extensas perseguições, desde 2003, incluindo o sequestro e o assassinato de seus líderes religiosos, ameaças de violência e morte se não abandonarem seus lares e negócios, além do bombardeio e destruição de suas igrejas e demais locais de culto. Esse cenário piorou após a invasão americana e a queda de Saddam Hussein em 2003 e consequente ascensão de militantes e milícias jihadistas.

Padre Ragheed Aziz Ganni, à esquerda na foto, e Bispo Mar Paulos Faraj Rahho, mártires caldeus

O padre Ragheed Aziz Ganni, pároco da Igreja Caldeia Católica do Espírito Santo em Mosul (Iraque), foi morto por radicais jihadistas em 3 de junho de 2007 juntamente com os subdiáconos Basman Youssef Daud, Wahid Hanna Isho e Gassan Isam Bidawed. Padre Ragheed, que havia se formado na Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino (Angelicum) em Roma, foi morto com seus companheiros logo após celebrar a Santa Missa. Desde então foi declarado Servo de Deus. Também o Arcebispo Caldeu Paulos Faraj Rahho (e três companheiros) foi sequestrado em 29 de fevereiro de 2008, em também em Mossul. Alguns dias depois, ele e os companheiros foram assassinados.

Nos últimos anos, sobretudo desde 2014, os assírios no norte do Iraque e nordeste da Síria têm se tornado o principal alvo do terrorismo islâmico. Como resultado, muitos têm se agrupado e pegado em armas para lutar junto a outros grupos (curdos, armênios, etc) em resposta aos ataques de grupos terroristas islâmicos wahhabistas, como a Al Qaeda, Frente Nusra e Estado Islâmico. Em 2014, este último promoveu uma verdadeira barbárie ao atacar cidades como Mosul, Kirkuk e Hasakeh, que têm grandes populações assírias. Nelas foram registrados as mais atrozes ações, incluindo mortes por decapitação, crucificações, estupros, escravidão, infanticídio, torturas, conversões forçadas, limpeza étnica, impostos cobrados aos "não muçulmanos", etc.

Em resposta, assírios tanto caldeus (católicos) quanto "nestorianos", além de membros de outras denominações, uniram-se formando milícias assírias armadas, que por sua vez também uniram forças a outros grupos cristãos (siro-arameus, armênios) e não cristãos (curdos, circacianos, etc.) e até mesmo muçulmanos xiitas, no intuito de protegerem seus povos e territórios.



OS CATÓLICOS CALDEUS NA DIÁSPORA

Catedral Católica Caldeia de São Pedro, na Califórnia (EUA)

Existem muitos Caldeus na diáspora, sobretudo após as recentes perseguições há pouco descritas. Um exemplo de país onde há uma grande comunidade é nos Estados Unidos, sobretudo em estados como Michigan, Illinois e Califórnia. A maior migração se deu para West Bloomfield (sudeste de Michigan), embora também existam grandes populações em partes da Califórnia e do Arizona, que se enquadram na Eparquia de São Tomé, o Apóstolo, de Detroit.

Em 2006, foi criada a Eparquia da Oceania, com o título de "Eparquia de São Tomé, o Apóstolo, de Sydney dos Caldeus". Essa jurisdição inclui as comunidades católicas Caldeias da Austrália e da Nova Zelândia, e o primeiro bispo, o agora Arcebispo de Bassorah (no Iraque), foi Djibrail Kassab.

O Canadá também tem registrado comunidades crescentes nos últimos anos. Em 10 de junho de 2011, o Papa Bento XVI instituiu uma nova Eparquia em Toronto, nomeando o Arcebispo Mar Yohannan Zora para pastoreá-la. Trata-se da maior comunidade de Caldeus do Canadá, com cerca de 38.000 membros, batizada de Eparquia Católica Caldeia de Mar Addai.

Em 2008, Mar Bawai Soro, da Igreja Assíria do Oriente, juntamente com 1.000 famílias assírias, foi recebido em plena comunhão católica na Igreja Católica Caldeia.


LOUIS RAPHAËL I SAKO, atual Patriarca de Babilônia dos Caldeus



Louis R. Sako nasceu em 04 de julho de 1948, na cidade de Zakho, no Curdistão Iraquiano. Pertence a uma família assíria da Igreja Caldeia Católica cujas raízes remetem a uma comunidade religiosa presente na cidade em que nasceu desde o século V.

Foi ordenado sacerdote em 01 de junho de 1974, pela Arquieparquia Caldeia de Mosul, desenvolvendo um trabalho bastante frutuoso. Antes de ser sagrado Bispo, Sako solicitou audiência com Saddam Hussein, depois que o então governo iraquiano havia recusado permitir que ele ensinasse educação religiosa. Saddam lhe recusou o pedido, mas ao invés de desistir, Louis Sako conseguiu doutorar-se, tendo após isso, obtido sua licença de professor, sendo autorizado pelo governo a lecionar Ensino Religioso.

Em 24 de outubro de 2002, foi escolhido pelo Sínodo dos Bispos Caldeus para ser ordenado Bispo. Após sua confirmação, foi sagrado Bispo em 14 de novembro de 2003, como Arquieparca de Kirkuk (Iraque). Em reconhecimento por suas atividades apostólicas, recebeu em 2008 o "Prêmio Defensor Fidei". Mar Louis R, Sako permaneceu como Arquieparca de Kirkuk por uma década. Por sua luta em prol da paz e da convivência pacífica em meio às comunidades muçulmanas, assim como por seu pastoreio em meio às perseguições e violências, recebeu o prêmio internacional "Pax Christi", em 2010.

O Sínodo dos Bispos da Igreja Caldeia Católica, convocado em Roma em 28 de janeiro de 2013, elegeu-o para suceder a Mar Emmanuel III Delly como o novo Patriarca de Babilônia dos Caldeus. Ele resolveu manter seu nome de batismo, sendo portanto designado como Sua Beatitude Louis Raphaël I Sako.

Em 01 de fevereiro de 2013, o Santo Padre Papa Bento XVI lhe concedeu a Ecclesiastica Communio (comunhão eclesiástica), que os Patriarcas e líderes das Igrejas Orientais Católicas (sui juris) procuram com o sucessor de Pedro e a Igreja Católica de modo geral. Sua Beatitude é conhecido pela erudição (fala neo-aramaico caldeu, árabe, alemão, francês, italiano e inglês) e pelo espírito conciliador, embora firme (emitiu condenações aos ataques e perseguições por parte dos muçulmanos jihadistas aos cristãos em geral), assim como teceu duras críticas às autoridades muçulmanas por sua postura omissa em não condenar as perseguições.



Um ponto "negativo" que consideramos em sua Beatitude Louis Raphaël I Sako é sua postura "aberta" que, embora louvável nos âmbito das relações com outras confissões e na proteção e defesa dos cristãos no oriente, as vezes tende a não valorizar certas tradições, ou melhor dizendo, entendê-las como possíveis obstáculos ou empecilhos que possam afastar os leigos e pessoas "não assírias-caldeias" da Igreja. Como exemplo, citamos sua decisão de não usar mais o tradicional "Shash", espécie de chapéu em formato de turbante e que por séculos é um símbolo tradicional dos Patriarcas e Bispos Assírios e Caldeus (sua beatitude o vê como um símbolo demasiado "clerical" que o "distanciaria do povo").

Aqui vemos seu antecessor, Patriarca Emmanuel III Karin Cardeal Delly, usando o Shash

Em novembro de 1994, o Santo Padre Papa João Paulo II e Mar Dinkha IV, então patriarca da Igreja Assíria do Oriente, assinaram uma Declaração Cristológica comum, em que se afirmava que ambas Igrejas professam a mesma doutrina sobre Nosso Senhor Jesus Cristo e que, portanto, o que os afastou por mais de mil anos teria sido uma divergência e imprecisão de termos.

Em contrapartida ao que falamos há pouco, partiu de Sua Beatitude Louis Raphaêl I Sako uma iniciativa extremamente louvável e sem precedentes na história recente. O Patriarca de Babilônia dos Caldeus propôs a "fusão" da Igreja Caldeia Católica com a Igreja Assíria do Oriente e a Igreja Antiga do Oriente (fruto de um cisma ocorrido em 1968 na Igreja Assíria do Oriente). Desta fusão passaria a existir uma única "Igreja do Oriente" unida a Roma e ao Papa, portanto plenamente católica. Sua proposta envolvia a sua própria renúncia e a de Mar Addai II, patriarca da Igreja Antiga do Oriente (neste momento o Patriarcado da Igreja Assíria do Oriente estava vago, após a morte de Mar Dinkha IV). Sua proposta, portanto, era que - com a renúncia de ambos - fosse reunido um sínodo com todos os bispos das três igrejas e se elegesse um novo Patriarca do Oriente. Infelizmente, essa bendita proposta foi frustrada quando a Igreja Assíria do Oriente elegeu seu novo Patriarca, instalado em 27 de setembro de 2015.

Patriarca dos Católicos Caldeus Louis Raphaël I  Cardeal Sako, com o Patriarca da Igreja Assíria do Oriente, Gewargis III

Em 28 de junho de 2018, Sua Beatitude Louis Raphaël I Sako foi criado Cardeal em um consistório, pelo Papa Francisco.


ORGANIZAÇÃO DA IGREJA CALDEIA CATÓLICA


Patriarca Louis Raphaël I Sako com Bispos Caldeus

O atual Patriarca dos Católicos Caldeus, Sua Beatitude Louis Raphaël I Sako, preside o Patriarcado de Babilônia, cuja sede é a Catedral de Maria Mãe das Dores, na capital do Iraque, Bagdá.




Catedral Católica Caldeia de Nossa Senhora das Dores, Bagdá - Iraque
Sede do Patriarcado de Babilônia dos Caldeus
Catedral Católica Caldeia de Nossa Senhora das Dores, Bagdá - Iraque
Sede do Patriarcado de Babilônia dos Caldeus


Patriarcado de Babilônia dos Caldeus - Bagdá - Iraque
Catedral Católica Caldeia de Nossa Senhora das Dores, Bagdá - Iraque
Sede do Patriarcado de Babilônia dos Caldeus


Catedral Católica Caldeia de Nossa Senhora das Dores, Bagdá - Iraque
Sede do Patriarcado de Babilônia dos Caldeus


Catedral Católica Caldeia de Nossa Senhora das Dores, Bagdá - Iraque
Sede do Patriarcado de Babilônia dos Caldeus

Sua Beatitude Louis Raphaël I Sako lidera espiritualmente toda a Comunidade Caldeia Católica ao redor do mundo. A comunidade também inclui:

- A Arquieparquia Metropolitana de Bagdá.

- A Arquieparquia Metropolitana de Kirkuk.

- A Arquieparquia Metropolitana de Teerã.

- A Arquieparquia Metropolitana de Urmya.

A Arquieparquia de Ahwaz.

A Arquieparquia de Basra.

A Arquieparquia de Diyarbakir.

A Arquieparquia de Erbil.

A Arquieparquia de Mosul.

A Eparquia de Alepo.

A Eparquia de Alkosh.

A Eparquia de Amadia.

A Eparquia de Akra.

A Eparquia de Beirute.

A Eparquia de Cairo.

A Eparquia de São Pedro Apóstolo, de San Diego.

A Eparquia de São Tomé Apóstolo, de Detroit.

A Eparquia de Católica Caldeia de Mar Addai, de Toronto.

A Eparquia de São Tomé Apóstolo, de Sidney.

A Eparquia de Salmas.

A Eparquia de Sulaimaniya.

A Eparquia de Zaku.

Territórios dependentes do Patriarcado: Jerusalém e Jordânia.



Além disso, a Igreja Caldeia Católica conta com centenas de paróquias e comunidades espalhadas pelo mundo, principalmente em outros países do oriente (Turquia, Palestina, Irã) assim como em países da Europa. Por não haver grande concentração de Católicos Caldeus alguns lugares específicos, formando pequenas comunidades dispersas, estas encontram-se sob jurisdição direta do Patriarcado ou então sob responsabilidade das Dioceses latinas onde estão inseridas.


A LITURGIA CALDEIA CATÓLICA 





A Igreja Caldeia Católica utiliza o Rito Caldeu, também chamado Rito Siríaco Oriental. O Rito Caldeu está enraizado na antiga tradição da Igreja do Oriente, e seu início remeteria aos Discípulos do Senhor, Addai e Mari, embora também lhe seja atribuída uma origem comum na Liturgia de São Tiago (Rito de Jerusalém-Antioquia).




Segue assim uma tradição litúrgica semelhante a outra Igreja Católica Oriental que usa o Rito Siríaco Oriental: a Igreja Católica Siro-Malabar, da Índia, embora esta última tenha particularidades no Rito que lhe são próprias.



Uma ligeira reforma na Liturgia entrou em vigor desde 6 de janeiro de 2007, tendo como objetivo unificar os muitos usos diferentes encontrados nas diversas regiões onde a Igreja Caldeia Católica se faz presente, além de remover certas adições (algumas centenárias) que demonstravam apenas uma "latinização" do Rito, além de algumas adaptações de razão pastoral.




Visita do Santo Padre, Papa Francisco, à Catedral Caldeia Católica na Georgia (setembro de 2016)







Esperamos que com este simples artigo, possamos - de alguma forma - contribuir para que mais e mais católicos conheçam e amem as riquezas do Oriente Católico, o lado oriental da Santa Igreja Católica.

Viva a Igreja Caldeia! Viva a Igreja Católica!

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Igrejas Católicas Orientais: 05 - A IGREJA COPTA CATÓLICA

A Cruz Copta

Igreja Copta Católica, também chamada de Patriarcado Copta Católico de Alexandria, é uma das 23 igrejas orientais ditas "sui juris", isto é, "autônomas", em plena comunhão com a Sé Apostólica de Roma. Isto significa, portanto, que a Igreja Copta Católica reconhece a autoridade do Papa como sumo pontífice, pai e líder de todos os católicos do orbe.

Há, atualmente, aproximadamente trezentos mil Católicos Coptas em todo o mundo, dos quais a grande maioria encontra-se no Egito, embora também sejam encontrados em outros países do oriente (Síria, Líbano, Turquia, Kwait) assim como em países da Europa e América (Estados Unidos e Canadá). Mas afinal, quem são os Coptas Católicos?

ORIGEM DA IGREJA COPTA CATÓLICA

Brasão de armas de sua beatitude Ibrahim Isaak Sidrak, patriarca copta católico de Alexandria 


Os Coptas Católicos são os cristãos católicos orientais que devem sua origem ao Patriarcado de Alexandria.

Como vimos anteriormente, a Igreja Católica é a comunhão de igrejas (comunidades cristãs) que professam a mesma Fé e que estão sujeitas aos mesmos chefes espirituais que as governam (bispos), estes por sua vez unidos entre si e à Igreja de Roma assim como a seu  bispo, o Papa. Nessa Comunhão Católica, podemos dizer que a Igreja possui duas raízes: a ocidental, também chamada latina (ou Romana) e a oriental. Dentro desta segunda, quatro são as sedes patriarcais que marcaram sua história: Jerusalém, AntioquiaAlexandria e ConstantinoplaAs 5 (cinco) sedes patriarcais formariam aquilo que denominamos "pentarquia" (conforme vimos nos artigos anteriores), encabeçada pela Igreja de Roma e o Pontífice Romano: o Papa.

Para que possamos compreender melhor, devemos entender, primeiramente, como se desenvolveu a Igreja em Alexandria.



FUNDAÇÃO APOSTÓLICA  


São Marcos Evangelista pregando em Alexandria

A Igreja egípcia, conforme a Tradição, foi fundada pelo Evangelista São Marcos, por volta do ano 42 d.C. e é entendida como tema de muitas profecias já do Antigo Testamento. O profeta Isaías, no capítulo 19, versículo 19, diz:

"Naquele dia, haverá um altar para o Senhor no meio da terra do Egito, e em suas fronteiras, um obelisco dedicado ao Senhor".

Os primeiros cristãos no Egito eram pessoas comuns que tinham o idioma copta como língua própria. Havia também o povo judeu alexandrino (habitantes de Alexandria), como Teófilo, a quem São Lucas Evangelista se dirige no capítulo introdutório de seu Evangelho. Quando a Igreja foi fundada por São Marcos, ainda sob o reinado do imperador romano Nero, uma grande multidão de egípcios nativos (em oposição a gregos ou judeus) abraçou a fé cristã.

O cristianismo se espalhou por todo o Egito, meio século após a chegada de São Marcos em Alexandria, como é evidente nos escritos do Novo Testamento encontrado em Bahnasa, no Egito Central, que datam de algo por volta do ano 200. Há também um fragmento do Evangelho de São João, escrito em copta, encontrado no Alto Egito, escrito entre o ano 100 e 150, portanto, na primeira metade do século II. No segundo século, o cristianismo começou a se espalhar para as áreas rurais, e as escrituras foram traduzidas para os idiomas locais, a saber, o copta.

A língua copta, termo este que também designa os membros da Igreja do Egito (referindo-se assim aos "egípcios originais"[não gregos], é uma linguagem universal usada na igrejas coptas como verdadeira marca de sua identidade. É derivado do egípcio antigo, sendo que muitos dos hinos litúrgicos estão em copta e foram transmitidos há milênios. O idioma é usado para preservar a língua original do Egito, uma vez que os invasores árabes a baniram obrigando os egípcios a substituí-la pelo idioma árabe.

Após a fundação da Igreja de Alexandria pelo Evangelista São Marcos, seu desenvolvimento esteve intimamente ligado ao desenvolvimento teológico ocorrido neste que foi um dos grandes centros teológicos da Igreja de Cristo em seu início: A Escola de Alexandria.


A CONTRIBUIÇÃO DA ESCOLA CATEQUÉTICA DE ALEXANDRIA E A VIDA MONÁSTICA EGÍPCIA NA FORMAÇÃO DA IGREJA


Santo Atanásio, Patriarca de Alexandria

A Escola Catequética de Alexandria é a escola catequética mais antiga do mundo: São Jerônimo afirma que a mesma teria sido fundada pelo próprio Evangelista São Marcos. Por volta do ano 190, já era reconhecida como importante instituição de aprendizado religioso, tendo entre seus mestres o nativo egípcio Orígenes, considerado um dos pais da Teologia e ativo no campo dos comentários e estudos bíblicos comparativos. Essa escola teológica teve muita influência no pensamento da Igreja nos primeiros séculos, além de destacar-se pelo ensino também em outros campos não religiosos, tais como as áreas de matemática, ciências e humanidades.

Outra contribuição do cristianismo egípcio à Igreja é a vida e espiritualidade monástica, por ter sido este o berço do monaquismo. Muitos cristãos egípcios foram ao deserto durante o século III e permaneceram lá para orar, trabalhar e dedicar suas vidas à reclusão e à adoração a Deus. Este foi o começo do movimento monástico, organizado por Santo Antônio, o Grande, São Paulo de Tebas, o primeiro anacoreta do mundo, Santo Antão, São Macário (o grande) e São Paquônio, o Cenobita, já no século IV.


Padres do Deserto: Santo Antão e São Paulo Eremita

O monasticismo cristão nasceu no Egito e foi fundamental para a formação da Igreja Copta. Praticamente todo o monaquismo cristão deriva, direta ou indiretamente, do exemplo egípcio. São Basílio Magno, Arcebispo de Cesareia da Capadócia, fundador e organizador do movimento monástico na Ásia Menor, visitou o Egito por volta de 357 e seu modelo é seguido por monges até nossos dias, seja pelos ortodoxos, seja pelos católicos orientais (de Rito Bizantino). São Jerônimo, que traduziu a Bíblia para o latim, veio ao Egito, a caminho de Jerusalém, por volta do ano 400, e deixou detalhes de suas experiências em suas cartas; São Bento fundou a Ordem Beneditina no século VI no modelo de São Paquômio, embora de maneira ainda mais rigorosa. Inúmeros peregrinos visitaram os "Pais do Deserto" para imitar suas vidas espirituais e disciplinadas. Este, portanto, foi um elemento de grande influência na formação da Igreja Copta: a espiritualidade monástica.



A IMPORTÂNCIA DA IGREJA COPTA NOS PRIMEIROS CONCÍLIOS


Primeiro Concílio de Nicéia

A igreja do Egito, com seu Patriarcado em Alexandria, teve grande importância para o desenvolvimento da Igreja, seja por sua influência teológica e monástica (como vimos), seja por sua importância eclesiológica: o patriarcado de Alexandria rivalizava com o Patriarcado de Constantinopla, "a nova Roma", pela dignidade e importância dentre as Sedes Patriarcais (estando apenas atrás da Sé de Roma). Além disso, de lá saíram heresias que modificariam os rumos da Igreja posteriormente, assim como grandes santos que as combateram.

No século IV, um presbítero alexandrino chamado Ário (ou Arius) iniciou uma disputa teológica sobre a natureza de Cristo que se espalhou por todo o mundo cristão (e que posteriormente passou a ser conhecida pelo nome de "arianismo"). O então Patriarca de Alexandria, Alexandre I, solicitou a realização de um Concílio para tratar desta que parecia ser verdadeira heresia. Então, o Imperador Constantino convocou aquele que viria a ser o Concílio Ecumênico de Nicéia, realizado no ano 325 e presidido pelo bispo São Ósio de Córdoba, para resolver a disputa. Neste Concílio foi formulado o Símbolo da Fé, também conhecido como Credo Niceno. O Credo, que  serve de base para o credo recitado até nossos dias em todo o mundo cristão, foi fundamentado nos ensinamentos daquele que era então diácono e secretário do Patriarca Alexandre: Santo Atanásio de Alexandria, o principal oponente de Ário. Santo Atanásio, posteriormente eleito 20º Patriarca de Alexandria, tornou-se um dos principais Pais da Igreja, tido oficialmente como Doutor da Igreja e Herói da Fé.

Alguns anos depois, em 381, O Patriarca de Alexandria Timóteo I presidiu o segundo Concílio Ecumênico, que tornar-se-ia conhecido como Concílio Ecumênico de Constantinopla. Nele, buscou-se definir a Doutrina sobre a Divindade do Espírito Santo, condenando-se assim as doutrinas heréticas de Macedônio, que negava a divindade do Espírito Paráclito. Este Concílio complementou o Credo Niceno, originando assim o chamado Credo Niceno-Constantinopolitano, que confirma a Fé no Divino Espírito Santo e que passou a ser rezado nas Divinas Liturgias (Missas) em todo o mundo, até nossos dias. 
São Cirilo de Alexandria,
Patriarca

Outra disputa teológica, desta vez no século V, teve participação decisiva da Igreja de Alexandria. Nestório, o Patriarca de Constantinopla, estava a ensinar que (o Verbo de) Deus não estava hipostaticamente ligado à natureza humana, mas antes, apenas habitava no homem Jesus. Como consequência disso, ele negou à Virgem Maria o título de "Theotokos" (Mãe de Deus), declarando-a simplesmente "Christotokos" (Mãe de Cristo). Quando as doutrinas de Nestório alcançaram o trono apostólico de São Marcos,  chegando ao conhecimento do então Patriarca de Alexandria, São Cirilo, este imediatamente solicitou a Nestório que se arrependesse e se retratasse, enviando-lhe a carta que ficou conhecida como "A Terceira Epístola de São Cirilo de Alexandria à Nestório". Nela estavam contidos os chamados "Doze anátemas de São Cirilo". Como Nestório ainda assim não se arrependeu, foi convocado o Concílio Ecumênico de Éfeso, que transcorreu em 431, e que foi presidido pelo Patriarca São Cirilo de Alexandria. Este Concílio condenou a doutrina de Nestório como heresia (que passou a ser chamada "Nestorianismo") e confirmou a importância da Igreja de Alexandria na defesa da Ortodoxia Católica.

Algumas igrejas separaram-se da Comunhão com a Igreja por simpatizarem com as doutrinas de Nestório e não aceitarem as definições do  Concílio de Éfeso. Tais igrejas subsistiram naquela que hoje é chamada Igreja Assíria do Oriente. No entanto, para a maior parte do mundo cristão, a Igreja permanecia unida aos 5 grandes Patriarcados que seguiam em Comunhão e professavam a mesma Fé.


O CONCÍLIO DE CALCEDÔNIA E A IGREJA COPTA

Concílio de Calcedônia

Durante os embates cristológicos que tendiam a dividir os cristãos, o Patriarca Dióscoro, sucessor de São Cirilo na Sé de Alexandria, solicitou ao imperador Teodósio II que convocasse um Concílio para resolver as questões relativas à natureza de Cristo, assim como sobre a situação de Eutiques, monge de Constantinopla que havia se tornado o principal expoente do que seria denominado monofisismo,  uma doutrina que negava a existência de duas naturezas em Cristo. Eutiques havia sido condenado como herético em um sínodo realizado em Constantinopla, presidido pelo Patriarca daquela Sé, São Flaviano, no ano de 448. Dióscoro de Alexandria, simpatizante das doutrinas monofisitas de Eutiques e oponente de São Flaviano de Constantinopla, buscava com este Concílio reabilitar Eutiques além de condenar a Flaviano.

Foi então que no ano seguinte,  em 449 aconteceu o "Segundo Concílio de Éfeso" (entre aspas já que, como veremos, não será reconhecido pela Igreja). Os legados papais trouxeram para o concílio duas cartas do Papa São Leão Magno endereçadas ao Patriarca São Flaviano de Constantinopla, onde se condenavam as doutrinas de Eutiques como heréticas. Dióscoro de Alexandria, no entanto, não só não permitiu que elas fossem lidas como também não permitiu que os legados papais presidissem o Concílio, sendo ele mesmo quem o presidiu. Neste concílio Eutiques foi reabilitado juntamente com suas doutrinas, e São Flaviano foi condenado, sendo deposto da Sé de Constantinopla, surrado e aprisionado, falecendo pouco tempo depois. Os legados papais não aceitaram tais acontecimentos, retornando à Roma e comunicando tudo ao Papa São Leão Magno, que condenou tal concílio e suas decisões, chamando-o de "Latrocínio de Éfeso", o "concílio de ladrões".
Papa São Leão Magno

Após o morte do imperador Teodósio II, seu sucessor Marciano foi impelido pelo Papa a convocar novo Concílio para fazer justiça, sanar as divisões e estabelecer a ortodoxia. Foi então que em 451 foi aberto o Concílio Ecumênico de Calcedônia. Neste Concílio Dióscoro de Alexandria foi três vezes convocado a comparecer para explicar-se, no entanto não o fez (em geral, os coptas dizem que não lhe foi permitido pelos soldados do imperador). Neste Concílio foram lidas as epístolas do Papa São Leão Magno ao Patriarca São Flaviano, que posteriormente ficaram conhecidas na história como "Tomo Leonino" ou "Tomus ad Flavianus", onde o Papa São Leão Magno expôs a doutrina ortodoxa sobre Cristo e sua natureza, ao qual após a leitura, os padres conciliares em concordância afirmaram que "Pedro falou pela boca de Leão". Eutiques e suas doutrinas foram novamente condenadas, e o Patriarca Dióscoro de Alexandria foi deposto. Após sua deposição, a maior parte da Igreja de Alexandria, clero e fiéis, sentiram-se injustamente sub-representados no Concílio e oprimidos politicamente pelo império Bizantino.

Para consumar a separação que já se fazia visível, o imperador - para impor a Fé de Calcedônia à Igreja de Alexandria - nomeou como novo Patriarca a Protério, o que não foi aceito pela maioria dos cristãos coptas de Alexandria, que por sua vez nomearam seu próprio Patriarca, Timóteo Eluro, rompendo assim a comunhão com a Igreja Calcedoniana (Católica). Esta parte, portanto, da Igreja de Alexandria que se separava do restante da Igreja Católica que aceitava o Concílio de Calcedônia, passou a chamar-se Igreja Copta Ortodoxa de Alexandria.

Catedral de São Marcos, Sede principal da Igreja Copta Ortodoxa de Alexandria

As conclusões do Concílio de Calcedônia também foram rejeitadas por muitos cristãos que se encontravam à margem do Império Bizantino: além dos egípcios (coptas), também armênios (originando a Igreja Apostólica Armênia) e alguns sírios (originando a Igreja Sirian-Ortodoxa de Antioquia).

A partir de então, passou a existir dois patriarcas em Alexandria: o nativo egípcio (copta) e não-calcedoniano, chamado Patriarca Copta de Alexandria e o "melquita" (imperial) calcedoniano (católico) Patriarca Grego de Alexandria. Este último, quando do Cisma do Oriente em 1054, acompanhou Constantinopla, sendo a partir de então Patriarca Grego Ortodoxo de Alexandria. Ainda assim, o Patriarca católico/ortodoxo e a igreja sob seu pastoreio continuaram como minoria em Alexandria: quase toda a população, assim como o clero, rejeitou os termos do Concílio de Calcedônia e permaneceu fiel à Igreja egípcia nativa (a partir de então conhecida como Igreja Copta Ortodoxa de Alexandria). Os coptas sempre consideraram-se mal compreendidos pelo Concílio de Calcedônia, inclusive muitos acreditaram ser as causas de sua condenação muito mais políticas que teológicas.


Como vimos, portanto, a partir de Calcedônia passaram a existir dois grupos de cristãos em Alexandria: o primeiro, minoritário, composto por aqueles que  aceitaram dogmaticamente a Fé católica e ortodoxa professada no Concílio de Calcedônia, conhecidos como Melquitas ("reais" já que acataram as ordens do rei), também chamados gregos/bizantinos (tanto por sua submissão ao imperador quanto por seu rito, já que haviam adotado o rito de Constantinopla), portanto católicos (em comunhão com Roma, Constantinopla e demais Igrejas calcedonianas). E o segundo, a grande maioria, composta por aqueles que não aceitaram o Concílio de Calcedônia, que passaram a ser conhecidos simplesmente como Coptas. Estes, que como vimos, passaram a denominar-se Igreja Copta Ortodoxa, seguiram em comunhão com a Igreja Apostólica Armênia e a Igreja Sirian-Ortodoxa,  formando a comunhão das Igrejas Ortodoxas Orientais.


A FORMAÇÃO DA IGREJA COPTA CATÓLICA 

A situação da Igreja de Alexandria permaneceu dividida em 2, conforme anteriormente explicado, até 1054, quando se deu o chamado "Grande Cisma do Oriente".  Com esse episódio, a minoria bizantina-grega do Patriarcado de Alexandria (calcedoniano) seguiu o Patriarcado de Constantinopla, separando-se de Roma: desde então o Patriarcado (calcedoniano) de Alexandria rompeu a comunhão  com a Igreja Católica e passou a denominar-se Patriarcado Grego Ortodoxo de Alexandria. Além  dele, a maioria cristã de Alexandria continuava a integrar o Patriarcado Copta Ortodoxo.


OS ATUAIS
Patriarca Grego de Alexandria Teodósio II (calcedoniano) e o Patriarca Copta Ortodoxo de Alexandria Tawadros II (não-calcedoniano) 


Após quase 1000 anos da separação da Igreja Copta Ortodoxa da Igreja Católica, entre os anos  de 1431 e 1445 a Igreja de Roma realizou o Concílio de Basiléia-Ferrara-Florença, onde se conseguiu sob o Papa Eugênio IV a união com a Igreja Copta, mais precisamente em 1442, por meio da Bula Cantate Domino. Infelizmente o distanciamento entre  a Igreja Copta e o Ocidente, sobretudo após a conquista de Constantinopla e queda do Império Bizantino pelos turcos em 1453, fez com que tal distanciamento esfriasse essa união ao ponto de torná-la inexistente.



Foi então que no século XVII, missionários ocidentais - principalmente franciscanos - começaram a chegar ao Egito, travando boas relações com os coptas. Em 1630, foi fundada uma missão da Ordem dos Capuchinhos no Cairo. Os Jesuítas, por sua vez, chegaram em 1675. Em 1713, o Patriarca Copta de Alexandria uniu-se novamente à Igreja Católica, submetendo-se à Roma. Essa união, tal como a que se deu em 1442, não durou muito.



Em 1741, o Bispo Copta de Jerusalém Anba Athanasius, tornou-se católico (e com ele uma parte considerável de seu clero), buscando assim ser recebido em comunhão com Roma. Quatro décadas depois, em 1781, o Papa Bento XIV o nomeou como vigário apostólico de cerca de 2000 católicos coptas egípcios. Posteriormente o Bispo Anba Athanasius retornou à Igreja Copta Ortodoxa, tendo então outros clérigos coptas católicos servido como vigários apostólicos.

INSTITUIÇÃO DO PATRIARCADO COPTA

Por influência do vice-rei otomano que queria um patriarca católico para os coptas, em 1824, o Papa estabeleceu o Patriarcado de Alexandria do Vicariato Apostólico da Síria, Egito, Arábia e Chipre, embora de certa forma se possa dizer que tal patriarcado era algo mais titular do que propriamente real. Os otomanos, a partir de 1829, passaram a permitir que os coptas católicos construíssem suas próprias igrejas.

Patriarca Copta Católico Kyrillos II Makarios
Meia década depois, o número de católicos de rito copta aumentou tanto que chegou ao ponto de, em 1895, o Papa Leão XIII restaurar o Patriarcado Copta Católico de Alexandria. Ele nomeou ao Bispo Cyril Makarios como vigário patriarcal. Makarios por sua vez, presidiu um sínodo, o que levou à introdução de algumas práticas latinas. Em 1899, Leão XIII nomeou Makarios como Patriarca de Alexandria dos Coptas Católicos, tomando o nome de Cirilo II. O Patriarca esteve à frente da Igreja Copta Católica até 1908 quando, devido à uma controvérsia, renunciou à pedido do Papa. O trono patriarcal permaneceu vago até 1947, sendo o Patriarcado administrado por um administrador apostólico.

Markos Khouzam ainda Bispo
Em 1947 foi permitida à Igreja Copta Católica reunir-se em Sínodo para a eleição de um novo patriarca. Nele foi escolhido Arcebispo de Tayibe, Markos Khouzam, como Patriarca Copta Católico de Alexandria, sob o nome de Markos II Khouzam. O Patriarca Marcos II foi entronizado em 10 de agosto de 1947, governando a Igreja Copta Católica por uma década, tendo - inclusive - encontrado-se com o Papa Pio XII.

O Patriarca Copta Católico Markos II Khouzam juntamente com alguns clérigos. Pode-se observar também alguns frades franciscanos, integrados à Igreja (e ao Rito) Copta Católica
Sua Beatitude o Patriarca Copta Católico Markos II Khouzam e Sua Santidade o Papa Pio XII

Faleceu em odor de santidade, em 2 de fevereiro de 1958. Foi sucedido pelo Bispo auxiliar da Eparquia de Alexandria, Stéphanos Sidarouss.

Patriarca Copta Católico Stéphanos I Sidarouss
Stéphanos (Estevão) Sidarouss nasceu no Cairo, em 22 de fevereiro de 1904. Ingressou na Congregação dos Lazaristas, tendo sido enviado a diversas casas desta congregação na França, onde realizou seus estudos e foi ordenado sacerdote, em 22 de julho de 1939, tendo - inclusive - lecionado nas casas lazaristas deste país. Entre 1946 e 1947, foi diretor do Instituto Eclesiástico de Coptas Católicos em Tantah, Egito. Em 25 de janeiro de 1948, foi sagrado Bispo auxiliar de Alexandria pelo Patriarca Markos II Khouzam. Uma década depois, em 10 de maio de 1958, foi eleito Patriarca Copta Católico de Alexandria, tendo, inclusive, participado do Concílio Vaticano II.

Sua Beatitude Patriarca Copta Católico
Stéphanos I Sidarouss, já criado Cardeal
Durante o Sínodo dos Bispos de 1971, expressou sua opinião sobre acreditar ser imprudente a Igreja Latina ordenar homens não celibatários, dentre outras coisas, por julgar que poderiam ficar muito absorvidos pelos assuntos familiares. Em 1965, o Papa Paulo VI o criou cardeal, sendo o primeiro Patriarca Copta a receber tal título, o que lhe permitia participar como eleitor dos conclaves que elegem o Papa. Desta forma, participou dos conclaves de agosto e outubro de 1978, que elegeram João Paulo I e João Paulo II. Na conclusão de ambos conclaves, foi um dos poucos cardeais que acompanhavam o novo papa eleito ao aparecer no balcão central da Basílica de São Pedro. Sua Beatitude Stéphanos I Sidarouss faleceu em 23 de agosto de 1987 no Cairo. Foi sucedido pelo Bispo de Luxor, Andraos Ghattas.

Sua Beatitude Patriarca Copta Católico Stéphanos II Ghattas

Andraos Ghattas nasceu na Vila de Cheikh Zein-el-Dine, na província de Girga, Egito. Quando adolescente, sentido o chamado ao sacerdócio, entrou no seminário menor da Igreja Copta Católica no Cairo. Foi para Roma, onde obteve doutorado em Teologia e Filosofia, sendo lá ordenado sacerdote em 25 de março de 1944. Em seguida retornou ao Egito, onde lecionou em diversos seminários coptas do país. Em 8 de maio de 1967 foi eleito bispo de Luxor, sendo consagrado em 9 de junho do mesmo ano pelas mãos do Patriarca Copta Cardeal Stéphanos I Sidarouss. Em junho de 1986, após a renúncia de seu antecessor, foi eleito pelo Santo Sínodo Copta Católico o novo Patriarca Copta Católico de Alexandria, com o nome de Stéphanos II Ghattas.
Sua Beatitude Patriarca Copta Católico
Stéphanos II Ghattas, já criado Cardeal

Sua Beatitude foi nomeado Cardeal pelo Santo Padre o Papa João Paulo II em 2001, no entanto, por ter completado 80 anos antes do Conclave de 2005, não participou deste que culminou na eleição do Papa Bento XVI. Em 2006 Stéphanos II Ghattas renunciou ao posto de Patriarca, falecendo 3 anos depois, em 20 de janeiro de 2009, no Cairo, com quase 90 anos. Após sua renúncia, foi sucedido pelo Bispo de Minya, Antonius Naguib.




Sua Beatitude o Patriarca Copta Católico
Antonius Naguib

Antonius Naguib nasceu em Samalut, em 18 de março de 1935. Após atender ao chamado do Senhor à vocação, estudou de 1953 a 1958 no Seminário de Maadi (Cairo) e, mais tarde, no Pontifício Colégio Urbano, em Roma. Voltou então ao Egito, onde foi ordenado sacerdote copta católico, no ano de 1960. Retornou a Roma onde recebeu licenciatura em Teologia em 1962 e em Sagrada Escritura em 1964. Regressou ao Egito onde desde então, passou a lecionar Sagrada Escritura no seminário de Maadi, tendo inclusive composto um grupo de especialistas responsáveis pela tradução da Bíblia ao árabe.

Em 1977, foi sagrado e empossado Bispo de Minya (Egito), cargo que ocupou até sua renúncia em 2002. Em 30 de março de 2006, foi foi eleito Patriarca Copta Católico de Alexandria, adotando o nome de Antonios I Naguib, recebendo a comunhão eclesiástica do Papa Bento XVI em 7 de abril de 2006. Em abril de 2010, apresentou sua renúncia ao Santo Sínodo Copta Católico, que no entanto a recusou, pedindo a ele que continuasse como Patriarca da Igreja Copta Católica.

Sua Beatitude Patriarca Antonius Naguib com Sua Santidade o Papa Bento XVI

Em outubro de 2010 foi escolhido como Relator Geral do Sínodo dos Bispos do Oriente e em 20 de novembro do mesmo ano, foi feito Cardeal pelo Papa Bento XVI. Teve papel importante na intermediação da paz durante os conflitos no Egito, ocorridos em 2011. No último dia deste ano, sofreu um derrame, o que fez com que sua saúde se deteriorasse ao longo do ano de 2012. Ainda assim, participou do Conclave de 2013 que elegeu o Papa Francisco. Em 15 de janeiro de 2013, renunciou ao posto de Patriarca. O Patriarca emérito Cardeal Antonios Naguib segue com quase 85 anos, embora com a saúde bastante debilitada.

IBRAHIM ISAAC SIDRAK, atual Patriarca Copta Católico de Alexandria e todo o Egito

Sua Beatitude Ibrahim Isaac Sidrak,, Patriarca Copta Católico de Alexandria

Ibrahim Isaac Sidrak nasceu em 19 de agosto de 1955 em Beni-Chokeir, província de Asyut. Estudou Teologia e Filosofia no Seminário Patriarcal de São Leão em Maadi (subúrbio do Cairo) e foi ordenado sacerdote em 1980. Após servir por dois anos na Paróquia São Miguel Arcanjo, no Cairo, foi enviado à Roma para estudar na Pontifícia Universidade Gregoriana, onde recebeu seu doutorado em Teologia Dogmática. Entre 1990 e 2001, foi reitor do Seminário Patriarcal de Maadi, posteriormente pároco da Catedral Patriarcal de Nossa Senhor do Egito, no Cairo, quando em outubro de 2002 foi eleito e sagrado Bispo de Minya.

Patriarca Copta Ortodoxo na entronização do Patriarca Copta Católico
Em 15 de janeiro de 2013, Ibrahim Isaac Sidrak foi eleito pelo Santo Sínodo da Igreja Copta Católica como o Patriarca Copta Católico de Alexandria e todo o Egito, recebendo a comunhão eclesiástica do Papa Bento XVI três dias depois, em 18 de janeiro de 2013. Em sua entronização, compareceu Patriarca  Copta Ortodoxo. Sua beatitude Ibrahim Isaac Sidrak mantém ótima relação com a Igreja Copta Ortodoxa e seu Patriarca, o Papa Tawadros II (papa também é um título tradicionalmente concedido ao Patriarca de Alexandria). Ele trabalha incansavelmente por aquele que seria seu maior objetivo, que seria uma futura unificação das igrejas  Católica e Ortodoxa Coptas do Egito, fazendo haver novamente uma única Igreja Copta em Comunhão  com Roma, portanto, Católica. Queira o Senhor que um dia tal acontecimento se realize.

Patriarca Copta Ortodoxo de Alexandria Tawadros II e  Patriarca Copta Católico de Alexandria Ibraim Isaac Sidrak



Sua Beatitude Patriarca Ibraim Isaac Sidrak com Sua Santidade o Papa Francisco quando de sua visita ao Egito

ORGANIZAÇÃO DA IGREJA COPTA CATÓLICA


Lateral da Catedral Patriarcal Nossa Senhora do Egito - Cairo - Egito
Interior da Catedral, a principal da Igreja Copta  Católica

O atual Patriarca dos Coptas Católicos de Alexandria e todo o Egito, Sua Beatitude Ibrahim Isaac Sidrak, preside a Eparquia Patriarcal de Alexandria assim como a Sé  Metropolitana do Cairo, capital moderna do Egito. Ele  preside a Assembléia da Hierarquia Católica do Egito e lidera espiritualmente toda a Comunidade Copta Católica ao redor do mundo. A comunidade também inclui:

- A Eparquia de Assiut.

A Eparquia de Guizeh.

A Eparquia de Ismayliah.

- A Eparquia de Luqsor (Luxor).


- A Eparquia de Minya.

A Eparquia de Sohag.

Além disso, a Igreja Copta Católica conta com centenas de paróquias e comunidades espalhadas pelo mundo, principalmente em outros países do oriente (Síria, Líbano, Turquia, Kwait) assim como em países da Europa e América (Estados Unidos e Canadá). Por não haver grande concentração de Coptas  Católicos em lugares específicos fora do Egito são pequenas comunidades dispersas), encontram-se sob jurisdição direta do Patriarcado ou então sob responsabilidade das Dioceses latinas onde estão inseridas.

Ordens Religiosas



A Igreja Copta Católica não possui mosteiros. Em vez disso, a Igreja tem Congregações Religiosas. São três congregações femininas: as Irmãs do Sagrado Coração, as Irmãs Coptas de Jesus e Maria e a Província Egípcia das Pequenas Irmãs de Jesus. Há também a comunidade (masculina) dos Franciscanos que seguem o Rito Copta.

Educação e Saúde

A maior parte dos candidatos ao sacerdócio é formada no Seminário Patriarcal de São Leão, no subúrbio do Cairo, embora a Igreja possua outros seminários. Mais de 100 paróquias Coptas Católicas administram escolas primárias e secundárias. A Igreja também mantém um hospital, vários dispensários e clínicas médicas, assim como vários orfanatos.
Infelizmente não há presença da Igreja da Igreja Copta Católica no Brasil.


A LITURGIA COPTA CATÓLICA 





A Igreja Copta Católica utiliza o Rito Copta (Alexandrino), rito este enraizado na antiga tradição da Igreja de Alexandria e cujo início remeteria ao próprio São Marcos Evangelista.

Seguem assim uma tradição semelhante a outras Igrejas Católicas Orientais que usam o Rito Alexandrino, como a Igreja Católica Etíope e a Igreja Católica Eritreia, embora as duas últimas tenham particularidades no Rito que lhe são próprias.




Além do Rito, a disposição dos templos e sua ornamentação, assim como os paramentos litúrgicos, são praticamente os mesmos da Igreja Copta Ortodoxa. A diferença é mais perceptível apenas nas vestimentas cotidianas dos clérigos: O Patriarca e os Bispos usam um vestuário mais parecido com o dos Patriarcas e Bispos gregos (melquitas, ortodoxos, etc) ao passo que os sacerdotes, em geral, usam uma batina muito semelhante à dos sacerdotes latinos.






Esperamos que com este simples artigo possamos, de alguma forma, contribuir para que mais e mais católicos conheçam e amem as riquezas do Oriente Católico, o lado oriental da Santa Igreja Católica.

Viva a Igreja Copta! Viva a Igreja Católica!